A biodiversidade é frequentemente descrita como a "teia da vida" e, por um bom motivo, sustenta tudo, desde a água limpa e o ar respirável até a comida em nossos pratos. No entanto, embora os cientistas possam medir a biodiversidade contando quantas espécies existem em um determinado local ou descrevendo sua abundância ou raridade, há outra dimensão crucial: como as pessoas a percebem. Isso importa porque estar em locais com biodiversidade não beneficia apenas a vida selvagem; também pode melhorar a saúde mental das pessoas, reduzir o estresse e até mesmo incentivar a atividade física.
No entanto, há uma reviravolta. Não estamos apenas enfrentando uma crise de perda de espécies, mas também uma "extinção da experiência". Com mais pessoas vivendo em grandes cidades e passando menos tempo na natureza, as oportunidades de observar a biodiversidade estão cada vez menores. Entender o que as pessoas realmente percebem quando entram na natureza pode ajudar a preencher essa lacuna. Se soubermos quais aspectos da biodiversidade as pessoas mais observam, seja a densidade das árvores, o brilho das folhas ou o número de pássaros cantando, poderemos projetar espaços verdes que promovam o bem-estar da vida selvagem e dos seres humanos.
Para ajudar a responder a essas perguntas, um estudo recente liderado por Kevin Rozario e Taylor Shaw investigou como nossos sentidos de visão e som moldam nossa percepção da biodiversidade, e se essas percepções correspondem ao que os ecologistas medem.
A equipe realizou dois experimentos simples, nos quais os pesquisadores apresentaram a voluntários fotografias de florestas temperadas europeias ou gravações de áudio de dez segundos das mesmas florestas, e pediram que as agrupassem da maneira que quisessem — por "densa vs. aberta", "iluminada vs. sombreada", "canto calmo vs. animado de pássaros". Em seguida, pediram aos mesmos voluntários que classificassem as imagens ou clipes em "baixa", "média" ou "alta" biodiversidade.
Enquanto isso, os pesquisadores estimaram a diversidade real para cada foto e gravação. Para as imagens, eles contaram quantas espécies de árvores estavam presentes nas fotografias e avaliaram a estrutura da floresta com avaliações de especialistas sobre a variação da copa, estrutura do sub-bosque e abundância de plantas do sub-bosque. Para o áudio, a diversidade real foi simplesmente o número de espécies distintas de pássaros vocalizando em cada clipe.
O estudo mostrou que as pessoas eram mais capazes de perceber a biodiversidade do que alguns estudos anteriores haviam sugerido. Quando os participantes compararam florestas diretamente, frequentemente notaram diferenças na riqueza de espécies e na estrutura florestal. Quando solicitados a classificar as florestas pela visão, as pessoas se basearam mais em pistas como densidade da vegetação, níveis de luz e cor, enquanto a classificação sonora foi determinada pela qualidade do canto dos pássaros, volume e até mesmo pela noção de tempo ou estação que as gravações evocavam.
Fundamentalmente, as impressões das pessoas não eram palpites aleatórios. A diversidade percebida correspondia fortemente à biodiversidade real, seja medida por espécies de árvores e estrutura florestal em fotos, seja pelo número de espécies de aves em gravações. De fato, a correlação foi surpreendentemente alta, especialmente em relação ao som. Isso sugere que os humanos são melhores detectores de biodiversidade do que poderíamos supor.
Curiosamente, a equipe também testou se índices simples poderiam atuar como atalhos para medir a diversidade "real" e "percebida". Eles descobriram que um Índice de Verdura, uma medida de quão verde uma imagem é, refletia tanto o número real de espécies quanto a diversidade que as pessoas pensavam estar observando. Além disso, encontraram uma forte correlação entre todos os seus índices acústicos — que capturam o quão complexo, frequente, contínuo e abrangente era o canto dos pássaros — e a biodiversidade percebida e real em cada floresta.
No final, este estudo destaca algo simples e profundo: quando entramos em uma floresta, nossos sentidos nos dão uma imagem bastante precisa de sua biodiversidade, o que significa que nossas impressões sensoriais cotidianas refletem a real complexidade ecológica. Como resultado, planejadores urbanos e conservacionistas poderiam usar índices visuais e acústicos simples como ferramentas econômicas para avaliar a biodiversidade, ao mesmo tempo em que se alinham com a forma como as pessoas realmente vivenciam a natureza. Ao mostrar que as impressões das pessoas se alinham com medidas científicas, a pesquisa fortalece a defesa da conservação e restauração de florestas diversas, ricas em espécies de árvores e aves. Essas florestas sustentam ecossistemas e, ao mesmo tempo, nos fazem sentir mais saudáveis e conectados. Olhando para o futuro, expandir esse tipo de trabalho para todos os nossos sentidos pode ajudar a projetar espaços verdes que beneficiem tanto as pessoas quanto a natureza, lembrando-nos de que proteger a biodiversidade tem tanto a ver com a experiência humana quanto com a sobrevivência ecológica.
LEIA O ARTIGO:
Rozario, K., Shaw, T., Marselle, M., Oh, RRY, Schröger, E., Giraldo Botero, M., … & Bonn, A. (2024). Biodiversidade percebida: o que medimos é também o que vemos e ouvimos?. Pessoas e Natureza. https://doi.org/10.1002/pan3.70087

Erika Alejandra Chaves-Diaz
Erika é uma bióloga e ecóloga colombiana apaixonada por florestas tropicais, primatas e divulgação científica. Ela possui mestrado em Ecologia e Conservação da Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) e integra o Ciência Tropical desde 2020, um grupo de divulgação científica que visa conectar as pessoas com a biodiversidade e conscientizar sobre o meio ambiente. Você pode segui-la e sua equipe no Instagram em @cienciatropical.
Tradução para espanhol e português de Erika Alejandra Chaves-Diaz.
Foto da capa por Guilhem Vellut (Wikimedia Commons).
