Entender como as plantas se reproduzem é essencial para entender a dinâmica do ecossistema, e a polinização desempenha um papel vital nesses processos. A maioria das plantas com flores, ou angiospermas, depende de animais para polinização, enquanto cerca de 10% dependem do vento para espalhar seu pólen.

Mas é aqui que as coisas ficam ainda mais intrigantes: algumas plantas usam animais e o vento para se reproduzir, uma estratégia chamada ambofilia. Apesar de quão fascinante isso soa, a ambofilia tem sido amplamente negligenciada na pesquisa de polinização, com menos de 1% dos estudos avaliando espécies ambofílicas. Essa falta de estudos deixou os cientistas com um dilema: a ambofilia é realmente rara ou não temos prestado atenção suficiente a ela?

A ambofilia pode ser, na verdade, uma estratégia evolutiva inteligente que ajuda as plantas a prosperar em ambientes desafiadores, especialmente onde os polinizadores animais são escassos. Por exemplo, habitats abertos como pastagens tropicais de terras altas criam as condições perfeitas para polinização animal e eólica, o que pode explicar por que encontramos mais espécies ambofílicas lá do que se pensava anteriormente. No entanto, pesquisas anteriores nesses ecossistemas frequentemente se concentraram em espécies polinizadas principalmente pelo vento, deixando uma grande parte da comunidade vegetal inexplorada.

Campo de altitude no Parque Nacional do Itatiaia. Foto de Alessandro Augusto Alves Pinto (Wikicommons).

Pensando nessa lacuna, Amanda Pacheco e sua equipe do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro examinaram 63 espécies de plantas no campos de altitude at Parque Nacional do Itatiaia, um local incrível no sudeste do Brasil, a cerca de 2,300 metros acima do nível do mar. Os pesquisadores queriam avaliar como a polinização eólica e animal contribuíam para a produção de sementes nessas plantas. Para fazer isso, eles conduziram experimentos de polinização controlada, onde algumas flores foram ensacadas para excluir ou permitir a polinização pelo vento ou animal. Ao final de seus experimentos, eles consideraram uma espécie como ambófila se tanto flores polinizadas por animais quanto pelo vento produzissem sementes viáveis.

Ensacando flores para o experimento de polinização controlada. Foto de Amanda Pacheco.

Os pesquisadores descobriram que 7 das 63 espécies de plantas (11%) foram polinizadas por animais e pelo vento, o que significa que são ambófilas. Embora esse número possa parecer baixo, ele aumenta o número de espécies ambrófilas conhecidas em cerca de 5% e todos esses registros vêm de uma única comunidade vegetal.

A alta frequência de ambofilia na campo de altitude pode ser explicado por uma combinação de fatores ambientais, incluindo velocidades de vento adequadas, vegetação aberta e baixas taxas de visitação animal. Além disso, a maioria das espécies ambrófilas neste ecossistema tinha flores pequenas e claras que podem ser polinizadas por muitos insetos pequenos, como besouros, moscas e vespas. A morfologia da flor não impede o vento de transportar pólen, sugerindo que o vento poderia atuar como uma fonte complementar de polinização. Pode-se dizer que esta estratégia dupla permite que as plantas abracem o melhor dos dois mundos: o vento garante a polinização mesmo quando os animais são escassos, enquanto os insetos fornecem entrega de pólen direcionada.

As sete espécies ambrófilas encontradas neste estudo. (A) Achyrocline satureioides. (B) Actinocephalus polyanthus. (C) Austroeupatorium petrophilum (Austroeupatorium petrophilum). (E) Baccharis uncinella. E. Grazielia intermedia. (F) Esterhazya eitenorum. (G) Symphyopappus cuneatus. Fotos de Pacheco et al. (2024).

Os autores também destacam que a ambofilia pode ser mais comum do que se pensava anteriormente, principalmente porque a contribuição do vento para a polinização raramente é abordada em famílias de plantas que são tipicamente polinizadas por animais. Ainda assim, Esterhazya eitenorum, uma das espécies ambófilas descritas neste estudo, possui grandes flores tubulares que são polinizadas por beija-flores e grandes abelhas. Assim, chamam a atenção para uma avaliação mais abrangente de diferentes vetores de polinização, independentemente da morfologia da flor.

Essas descobertas ressaltam a importância de estudos completos de polinização em comunidades de plantas. Particularmente, o estudo de Pacheco e sua equipe abre a porta para explorar como a ambofilia molda a sobrevivência e a diversidade das plantas em outros ecossistemas, oferecendo oportunidades empolgantes para pesquisas futuras sobre esse fascinante, porém pouco estudado, sistema de polinização.

LEIA O ARTIGO:

Pacheco, A., Bérgamo, PJ, & Freitas, L. (2024). Alta frequência de ambofilia em campos de altitude brasileiros. Annals of Botany, mcae176. https://doi.org/10.1093/aob/mcae176

Victor HD Silva é um biólogo apaixonado pelos processos que moldam as interações entre plantas e polinizadores. Ele está atualmente focado em entender como as interações planta-polinizador são influenciadas pela urbanização e como tornar as áreas verdes urbanas mais amigáveis ​​aos polinizadores. Para mais informações, siga-o no ResearchGate como Victor HD Silva.