Imagine um castelo real guardado por sentinelas leais que protegem seus tesouros a todo custo. Esses guardas precisarão ser pagos, e os nectários extraflorais são a maneira das plantas de fazer isso acontecer, pois oferecem néctar doce para recompensar as formigas que patrulham suas folhas e flores. Essas formigas agem como guardas ferozes, afugentando herbívoros famintos e outros intrusos que querem se banquetear com as partes preciosas do castelo.
Mas, às vezes, esses guardas são tão zelosos que afugentam os visitantes que o castelo deseja receber, seus polinizadores. A posição desses guardas faz toda a diferença. Se ficarem perto da entrada principal, perto das flores, os visitantes podem hesitar em entrar. Mas se patrulharem as paredes externas, como folhas ou caules, a convivência se torna mais fácil. Nem todos os visitantes reagem da mesma maneira: as abelhas tendem a evitar esses guardas, enquanto as borboletas se sentem menos intimidadas.
Estudos anteriores apresentaram resultados divergentes para essa relação, com alguns demonstrando que as formigas prejudicam a polinização, enquanto outros sugerem que os benefícios da proteção superam os custos. Essa incerteza dificulta nossa compreensão de como as plantas desenvolvem suas defesas, como os polinizadores se adaptam e como os ecossistemas funcionam. Se as plantas conseguirem encontrar uma maneira de manter as formigas protetoras sem perder os polinizadores, isso poderá explicar por que tantas plantas possuem essas recompensas de néctar.

Para desvendar esse mistério, Amanda Vieira da Silva e o time dela dados combinados de 27 estudos separados comparando plantas com e sem formigas, medindo a frequência com que as flores eram visitadas e o quão bem as plantas se reproduziam.
Os autores descobriram que as formigas geralmente reduziam as visitas às flores, especialmente as de abelhas. Esse efeito era mais forte quando as glândulas de néctar estavam localizadas diretamente sobre ou perto das flores. Nesse cenário, podemos imaginar formigas agindo como guardas vigilantes na entrada da flor, intimidando esses visitantes cruciais.
Curiosamente, as borboletas não foram afetadas da mesma forma. Ao contrário das abelhas, as borboletas pareciam menos incomodadas pelas formigas e continuavam a visitar as flores mesmo quando elas estavam presentes. Essa diferença pode ser explicada pelo fato de as borboletas serem mais cautelosas ou terem comportamentos que as ajudam a evitar encontros diretos com formigas, como, por exemplo, usar sua longa probóscide para alcançar o néctar sem tocar nas partes da flor onde as formigas patrulham e passar apenas breves momentos em cada flor.
Apesar do menor número de visitas às flores, as plantas não sofreram um declínio claro na capacidade de produzir sementes e frutos. De fato, plantas com glândulas de néctar nas folhas ou caules frequentemente apresentavam melhor reprodução quando havia formigas por perto. Isso sugere que as formigas ajudam a proteger essas plantas de insetos nocivos que poderiam danificar folhas, flores ou frutos, melhorando a saúde e o sucesso geral da planta.
Esses resultados revelam um equilíbrio fascinante. Embora as formigas possam, às vezes, afugentar polinizadores como as abelhas, seu papel protetor contra insetos herbívoros pode, em alguns casos, ajudá-las a se reproduzir melhor. Isso significa que a presença de formigas não é simplesmente benéfica ou prejudicial, mas depende da localização das glândulas de néctar e de quais polinizadores estão envolvidos. Além disso, o estudo destaca como as plantas podem ter desenvolvido estratégias para manter esses guarda-costas por perto sem perder os polinizadores essenciais. A compreensão dessas compensações pode revelar como mutualismos complexos moldam a evolução das flores, das glândulas de néctar e dos insetos que as visitam, oferecendo uma nova perspectiva sobre como a cooperação e o conflito se entrelaçam na natureza.
LEIA O ARTIGO:
Vieira da Silva, A., Nogueira, A., Bronstein, JL, Rey, PJ, & Leal, LC (2025). Formigas em flores: Formigas protetoras impõem um custo baixo, mas variável, à polinização, moderado pela localização dos nectários extraflorais e pelo tipo de visitante floral. Journal of Ecology. https://doi.org/10.1111/1365-2745.70087

Victor HD Silva
Victor é um biólogo apaixonado pelos processos que moldam as interações entre plantas e polinizadores. Atualmente, ele se concentra em entender como a urbanização influencia as interações entre plantas e polinizadores e como tornar as áreas verdes urbanas mais favoráveis aos polinizadores. Para mais informações, siga-o no ResearchGate como Victor HD Silva.
Tradução para o português por Victor HD Silva.
