A mobilização online de coleções digitais tornou dezenas de milhões de espécimes acessíveis à pesquisa científica, auxiliando descobertas em conservação, segurança alimentar e estudos de biodiversidade. Muitos desses projetos se concentram em questões como: riscos de extinção, melhorando as estimativas da distribuição de plantas no espaço e no tempo, e planejamento de conservação para espécies ameaçadas.

Mas a digitalização pode fazer mais do que ajudar os cientistas a contar e mapear plantas. Sabia que as coleções digitais também podem ajudar a preservar o património biocultural: o conhecimento, as histórias, os usos e as relações que ligam as pessoas às plantas? É aqui que entra o conceito de "próximo conhecimento". etnobotânica As coleções entram na conversa. Essas coleções situam-se algures entre um herbário, um arquivo e um museu, ligando espécimes e objetos de plantas às pessoas que os utilizam, nomeiam, produzem e valorizam.

Fundado em 1808, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro é há muito tempo um ponto de encontro entre plantas, ciência e história. Hoje, ele não é apenas um belo jardim público, mas também uma importante instituição de pesquisa que trabalha com a extraordinária diversidade vegetal do Brasil. canva

Com efeito, estudar As plantas podem revelar histórias sobre a história e a relação humana com a natureza. A etnobotânica explora exatamente essa conexão: como as pessoas e as plantas interagem e como esse conhecimento se transforma ao longo do tempo. As plantas moldaram praticamente todos os aspectos da vida humana, da alimentação e medicina aos rituais. O desafio agora é como preservar esse conhecimento inestimável.

A Coleção Etnobotânica (RBetno) do Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) levou esse desafio muito a sério. Em seu estudo recente, Viviane Fonseca-Kruel e colegas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ; Brasil) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio; Brasil) destacam as oportunidades e os desafios da implementação de um protocolo abrangente de digitalização para a coleção etnobotânica da Mata Atlântica e da Amazônia.

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro é um repositório de história cultural. Os cientistas que lá trabalham para preservar esse conhecimento inestimável para as gerações futuras por meio da digitalização de suas coleções. Fonte: canva

O que torna esta coleção tão fascinante é que ela mostra as plantas para além da folha de herbário: como parte do quotidiano, da memória cultural e do conhecimento prático. Inclui uma enorme diversidade de artesanato feito com plantas, como colares e cestos, medicamentos e ferramentas, como vassouras e utensílios domésticos, e alimentos, criando um repositório biocultural rico e acessível. Cada objeto é submetido a documentação meticulosa, descontaminação, catalogação, fotografia e arquivamento digital para garantir a sua preservação a longo prazo e a acessibilidade global. 

A coleção de etnobotânica possui aproximadamente 300 registros e 817 imagens, abrangendo 57 famílias botânicas, 119 gêneros e 91 espécies. Para facilitar o acesso público e a rastreabilidade, o protocolo e as informações digitalizadas foram publicadas de acordo com Padrões do Global Biodiversity Information Facility (GBIF) e catalogado em JBRJ's JABOT plataforma, que Possui mais de 3 milhões de registros de plantas provenientes de mais de 100 herbários parceiros brasileiros.Embora os dados da RBetno ainda não estejam disponíveis publicamente (a partir de junho de 2026), seus protocolos e estudos de caso estão disponíveis abertamente e a equipe está aberta a feedbacks e colaborações.

Imagens de RBetno, onde itens como farinha de mandioca, sacos de fibra, cestos e colares de sementes foram digitalizados e publicados no sistema JABOT. Fonte: M. Taniguchi em Fonseca-Kruel et al., 2025 / CC BY-NC-ND 4.0

Mas esta história não se resume à digitalização de objetos. Trata-se também de reconectar esses itens com os detentores do conhecimento tradicional por trás deles, incluindo os Povos Indígenas e Comunidades Locais (PICLs), cujos valores culturais, práticas e conhecimento ecológico estão profundamente enraizados nesses materiais. Por essa razão, os pesquisadores incluíram significados culturais nos metadados, pois nomes vernáculos, conceitos locais e práticas de gestão tradicionais fornecidas pelos próprios colaboradores indígenas. 

A digitalização dessas informações levanta um grande desafio ético: equilibrar a acessibilidade com a proteção. Alguns registros etnobotânicos contêm conhecimento cultural sensível relacionado a práticas medicinais, rituais ou plantas sagradas. É aqui que a digitalização se torna poderosa e delicada ao mesmo tempo.

Palmeira Buriti (Mauritia flexuosa) é uma planta culturalmente importante com muitos usos. Paulo Donahue / iNaturalist / CC BY-NC 4.0

O projeto RBetno faz parte de uma discussão mais ampla sobre as melhores práticas em etnobotânica digital. um papel relacionadoOs pesquisadores destacam que espécimes de herbário digitalizados podem conter informações valiosas sobre usos de plantas, conceitos locais de espécies e práticas de manejo, mas que esse material precisa de padrões compartilhados e colaboração cuidadosa com as comunidades de origem para ser usado de forma responsável.

Para resolver isso, o protocolo RBetno seguiu ambos Princípios FAIR e CARE, que promovem o acesso ético, a transparência e garantem que as comunidades tradicionais continuem sendo reconhecidas como guardiãs desse conhecimento ancestral.

Um exemplo fascinante é a versátil palmeira buriti (Mauritia flexuosa), uma das plantas de maior importância cultural representadas na coleção. Seus frutos são utilizados para a produção de óleo; seus caules são transformados em artesanato e brinquedos; suas folhas são trançadas para a confecção de cestos, bolsas, esteiras e até mesmo transformadas em materiais de construção. Entre alguns grupos indígenas do Brasil Central, toras de buriti também são utilizadas em corridas cerimoniais praticadas há séculos. 

Os frutos da palmeira buriti são utilizados para a extração de óleo, em cosméticos, alimentos e doces tradicionais no Brasil. Fonte: edgarscp via INaturalista (CC BY-NC 4.0)

Uma única espécie pode, portanto, revelar conexões culturais, econômicas e espirituais simultaneamente – exatamente o tipo de riqueza que pode se perder quando os registros de plantas são reduzidos apenas a nomes.

Fonseca-Krue e colegas espero que eles "O manuscrito inspira novas pesquisas e iniciativas em documentação etnobotânica, particularmente no Sul Global, ao mesmo tempo que estimula a reflexão sobre seus desafios e perspectivas."

Apesar dos desafios, as coleções etnobotânicas digitalizadas criam oportunidades notáveis ​​de colaboração entre cientistas, comunidades indígenas, artistas, antropólogos e comunidades locais. Só o Brasil abriga 305 grupos étnicos, 274 línguas indígenas e centenas de territórios quilombolas oficialmente reconhecidos. Coleções como a RBetno tornam-se, portanto, muito mais do que arquivos científicos: são registros vivos da identidade cultural.

Em seu artigo, Fonseca-Krue e seus colegas escrevem:

“Este projeto demonstra como a tecnologia pode ser utilizada para a conservação biocultural, fornecendo dados para orientar futuras políticas de conservação e aprimorar a rastreabilidade do conhecimento tradicional.” 

Como podemos ver, preservar plantas implica preservar as tradições, o conhecimento, as memórias e as identidades culturais a elas associadas. A digitalização de coleções etnobotânicas oferece novas maneiras de explorar as relações entre as pessoas e a biodiversidade, além de ajudar a reconectar as gerações mais jovens com seu patrimônio cultural.


LEIA O ARTIGO: Fonseca‐Kruel, V., Coimbra, C., Estevão da Silva, L., Oliveira, F., Vasconcelos Mesquita, M., Taniguchi, M. e Forzza, R. (2025) Conectando tradição e tecnologia: A digitalização da coleção etnobotânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. PLANTAS, PESSOAS, PLANETA. Disponível em: https://doi.org/10.1002/ppp3.70105.

NOTA DE PUBLICAÇÃO: Os dados do RBetno ainda não estão disponíveis publicamente até junho de 2026. Sua disponibilização está passando por um processo de adaptação, pois requer o tratamento de dados sensíveis e a gestão do conhecimento tradicional associado, em conformidade com a Lei nº 13.123/2015.

Traduções para francês e espanhol por Ana Valladares.


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Perfil do Escritor Convidado

Ana Valladares, parte cientista, parte apaixonada por dados e viajante incansável. Ana é uma cientista mexicana com experiência em biotecnologia, melhoramento de plantas e análise de dados, atualmente em Madagascar. Curiosa por natureza, Ana adora explorar novos assuntos, especialmente sobre plantas, novas culturas e lugares ao redor do mundo.


Imagem da capa: O conhecimento etnobotânico conecta as plantas às suas histórias humanas. Aqui, vemos o processo de fabricação de uma bolsa a partir da fibra natural da palmeira ráfia (Raphia farinifera) em Madagascar. Imagem cedida por Ana Valladares.