Você não pode escapar de sua herança; todos nós passamos pela vida com uma variedade de 'bagagens' que trai nossas origens, seja nosso sotaque, preferências culturais ou roupas. E, quanto a estes últimos, o mesmo se pode dizer dos cloroplastos, esses pequeninos fotossintéticos, citoplasmáticos, 'corpúsculos'.

Protonemacélulas de Physcomitrella patens
Células protonema de Physcomitrella patens Imagem: Anja Martin, Ralf Reski/Wikipedia

Embora haja evidências contundentes para a Teoria Endossimbiótica Serial – por exemplo, que os cloroplastos de células eucarióticas já foram organismos procarióticos de vida livre – é sempre encorajador conseguir mais. É, portanto, bastante agradável saber que Takayuki Hirano et al. demonstraram a presença de uma 'parede' de peptidoglicano, ou túnica, ao redor dos cloroplastos do musgo Fiscomitrella patenas.

Parece que essa "túnica" externa é um legado da estrutura externa do suposto predecessor procariótico protocloroplástico pré-histórico. Provavelmente localizada entre as membranas interna e externa do envelope do cloroplasto do musgo (como seria de se esperar de uma origem por englobamento para essa organela), a túnica contém, crucialmente, aminoácidos D. Enquanto os aminoácidos L são a forma predominante em moléculas biológicas, os aminoácidos D são componentes básicos do peptidoglicano bacteriano – ou seja, procariótico. Além disso, e novamente consistente com uma história procariótica, defeitos nos genes do musgo responsáveis ​​pela produção do peptidoglicano resultam em imperfeições na divisão do cloroplasto (entre outras funções, o peptidoglicano bacteriano atua na divisão celular). Essa via de biossíntese do peptidoglicano bacteriano não é encontrada em angiospermas, sugerindo que a perda do peptidoglicano plastidial ocorreu durante a evolução das plantas com flores.

Quanto tempo antes de descobrirmos a 'túnica externa' da mitocôndria, outra organela que provavelmente tem uma endossimbiótico origem do sequestro serial? Mas não adianta procurá-lo no oxymonad Monocercomonoides sp.. Por quê? Porque não tem mitocôndrias!