Frequentemente ouvimos falar sobre o declínio das populações de espécies. Mas e os serviços que essas espécies prestam? Um dos mais notáveis ​​é a dispersão de sementes. No ano passado, Mendes e seus colegas publicaram um artigo em Ciência lançando luz sobre o estado de conservação da dispersão de sementes na Europa.

A dispersão de sementes é fundamental para as plantas por vários motivos. Primeiro, permite que sementes com genes diferentes estabeleçam novas populações ou conectem populações existentes, mantendo a diversidade genética. fluxo gênico vivas. Em segundo lugar, a dispersão permite que as sementes prosperem longe da planta-mãe, evitando a competição pelos mesmos recursos. Por fim, a dispersão de sementes torna-se ainda mais crucial no contexto das mudanças climáticas, uma vez que os seres vivos precisam, agora mais do que nunca, encontrar novos locais onde possam sobreviver em condições climáticas variáveis.

No entanto, as sementes não conseguem se mover sozinhas – elas precisam de ajuda externa, seja do vento, da água ou de animais. Infelizmente, com a atual perda de espécies e populações animais, uma tendência conhecida como defaunaçãoA dispersão de sementes por animais está cada vez mais ameaçada. Isso é especialmente preocupante na Europa, onde quase um quarto das plantas depende de animais para a dispersão. No entanto, pouco se sabe sobre o estado de conservação da dispersão de sementes, já que as pesquisas geralmente se concentram nas espécies, em vez das interações que mantêm os ecossistemas funcionando, embora essas interações muitas vezes desapareçam antes das próprias espécies.

Para avaliar o estado de conservação da dispersão de sementes na Europa, Mendes e colaboradores realizaram uma revisão sistemática da literatura em 26 idiomas diferentes para reunir todos os registros de interações de dispersão de sementes envolvendo vertebrados e invertebrados em plantas nativas europeias. Para determinar o estado de conservação da dispersão de sementes, eles definiram 4 categorias com base no estado de conservação tanto das plantas quanto das espécies dispersoras: Preocupação Muito Alta, Preocupação Alta, Não Avaliado e Preocupação Baixa.

A equipe descobriu que todos os biomas europeus apresentam interações de Alta Preocupação: de 25% no Mediterrâneo a 81% nos biomas do Mar Negro. A alta porcentagem de interações de Alta Preocupação em biomas pouco estudados, restritos e degradados, como o do Mar Negro, demonstra a urgência de conhecer e conservar as redes que sustentam comunidades tão singulares.

Outro resultado importante deste estudo foi a descoberta de que o estado de conservação do serviço de dispersão é um “indicador mais sensível e abrangente da saúde da comunidade do que o estado de conservação das espécies isoladamente”. Embora 17% das espécies de plantas tenham sido classificadas como de Alta Preocupação, 31% das interações que elas mantêm com animais se enquadraram nas categorias de Alta ou Muito Alta Preocupação. Esse resultado confirma que as interações — e os serviços que elas prestam — podem desaparecer antes mesmo da própria espécie.

Além disso, ao estimar a cobertura da amostra de seu conjunto de dados, os pesquisadores descobriram que apenas 26% das 2,248 espécies de plantas europeias com características para zoocoria, dispersão de sementes por animais, possuem dados sobre dispersão de sementes. Eles também descobriram grandes lacunas nas avaliações de conservação: 67% das plantas com características de zoocoria e 85% dos invertebrados dispersores de sementes não foram avaliados pela IUCN. Essas lacunas limitam nossa compreensão da dispersão de sementes e podem estar ocultando perdas muito maiores de espécies e dos serviços que elas prestam.

Mendes e sua equipe não apenas descobriram uma crise de dispersão de sementes na Europa, mas também forneceram uma ferramenta para melhor orientar os esforços de conservação. Além disso, este artigo é um apelo por mais pesquisas sobre espécies de plantas e invertebrados negligenciadas, pois essas lacunas de conhecimento podem estar ocultando casos importantes de extinção funcionalnIsso nos lembra que, para conservar a natureza, precisamos olhar além das espécies e proteger as interações que mantêm os ecossistemas vivos.

LEIA O ARTIGO

Mendes, SB, Olesen, JM, Memmott, J., Costa, JM, Timóteo, S., Dengucho, AL, … & Heleno, R. (2024). Evidências de uma crise de dispersão de sementes na Europa. Ciência, 386(6718), 206-211.

Paula Erazo

Paula é uma bióloga entusiasmada com uma profunda curiosidade sobre a vida e tudo ao seu redor. Com mestrado em Comunicação Científica, ela adora compartilhar as maravilhas do mundo natural. Siga ela e sua equipe de comunicação científica no Instagram em @cienciatropical

Tradução para o espanhol por Paula Erazo.