As plantas que correm maior risco de desaparecer nem sempre são aquelas que os cientistas conhecem melhor. Na verdade, Um novo estudo sobre a flora nativa do Brasil sugere o contrário.Muitas das plantas mais ameaçadas do país são pouco mencionadas na literatura científica, enquanto espécies mais seguras ou economicamente úteis recebem muito mais atenção.
Esse viés é importante para a conservação, pois a recuperação e a proteção de espécies não podem ser guiadas apenas pela preocupação. Para proteger uma espécie, as pessoas precisam primeiro saber que ela existe, onde vive, o quão ameaçada está e quais medidas podem contribuir para sua conservação. Sem essas informações, mesmo plantas oficialmente reconhecidas como ameaçadas podem ter dificuldades para serem incluídas em planos de conservação, prioridades de financiamento ou na conscientização pública.
Em um artigo publicado no Plantas, Pessoas, Planeta, uma equipe liderada por um estudante de doutorado Renon S. Andrade examinaram como a atenção científica se distribui entre as plantas brasileiras. A pergunta era simples, mas reveladora: quando os cientistas estudam plantas, o que determina quais espécies entram na literatura científica?

A equipe de pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e do Jardim Botânico Real de Kew concentrou-se em 7524 espécies de plantas nativas do Brasil que já haviam sido formalmente avaliadas quanto ao risco de extinção. Entre elas, estavam espécies classificadas como Criticamente em Perigo, Em Perigo, Vulneráveis, Quase Ameaçadas, Pouco Preocupantes e com Dados Insuficientes, sendo esta última categoria aquelas para as quais se sabe muito pouco para avaliar adequadamente seu risco de extinção.
Para cada espécie, os pesquisadores pesquisaram no Web of Science, um dos maiores bancos de dados de artigos acadêmicos. Em seguida, fizeram duas perguntas: essa espécie apareceu em pelo menos um artigo científico? E em quantos artigos ela é mencionada? Isso permitiu à equipe estimar a “atenção científica”.
Os autores compararam essa visibilidade entre diferentes categorias de risco de extinção. Eles também testaram quais características melhor previam o número de artigos que uma planta recebeu. Essas características incluíam se uma espécie estava ameaçada, se era encontrada apenas no Brasil, quão amplamente distribuída pelos estados brasileiros e se tinha um uso econômico documentado. Com essa abordagem, o estudo pôde ir além de relatos isolados e mensurar para onde a pesquisa botânica está realmente caminhando e, mais importante, para onde não está.

Os resultados revelaram uma discrepância impressionante. Das 7524 espécies de plantas brasileiras avaliadas quanto ao risco de extinção, apenas 2227 — menos de um terço — tiveram pelo menos uma menção na Web of Science. Mesmo entre as espécies que apareceram na literatura, o número de publicações foi extremamente desigual. Mais de mil espécies foram mencionadas apenas uma vez, enquanto algumas poucas plantas familiares ou úteis dominaram o registro.
Quando os pesquisadores compararam as espécies por categoria de risco de extinção, o desequilíbrio ficou mais evidente. Plantas classificadas como Dados Insuficientes, Criticamente em Perigo ou Em Perigo estavam sub-representadas em publicações científicas. Espécies de Menor Preocupação, que atualmente não são consideradas ameaçadas, estavam fortemente super-representadas. Em outras palavras, plantas consideradas mais seguras frequentemente recebem mais visibilidade científica do que aquelas em maior risco.

O número de publicações aumentou desde 2000, mas isso não eliminou a lacuna. As espécies classificadas como de menor preocupação passaram de 19 publicações em 2000 para 148 em 2021. Já as espécies criticamente ameaçadas passaram de apenas três publicações em 2000 para quatro em 2021. As espécies com dados insuficientes também permaneceram especialmente negligenciadas, apesar de serem justamente as plantas para as quais mais informações são urgentemente necessárias.
O principal fator que impulsionou o volume de publicações não foi o risco de extinção, mas sim o uso econômico. Plantas com usos humanos conhecidos — para alimentação, madeira, medicina ou outros fins — receberam muito mais publicações do que aquelas sem esses usos. Isso sugere que a atenção científica muitas vezes segue o valor prático, as oportunidades de financiamento e os incentivos à publicação, e não apenas a urgência da conservação.
Outros padrões reforçaram a mesma mensagem. O fato de uma espécie estar ameaçada ou ser encontrada apenas no Brasil esteve associado a um menor número de publicações. Espécies distribuídas por mais estados brasileiros receberam um pouco mais de atenção, provavelmente por serem mais fáceis de serem encontradas e estudadas pelos pesquisadores. Árvores também atraíram mais pesquisas do que outras formas de crescimento, como ervas e arbustos.
As lacunas de pesquisa não eram aleatórias. A maioria das famílias de plantas com espécies ameaçadas estava sub-representada na literatura. Mesmo em estados brasileiros ricos em plantas ameaçadas, muitas espécies permaneceram proporcionalmente pouco estudadas. Isso significa que a pesquisa pode se concentrar em regiões biodiversas, mas ainda assim deixar de fora muitas das espécies ameaçadas presentes nessas regiões.

A mensagem mais clara do estudo é que o interesse científico não acompanha automaticamente a necessidade de conservação. Isso é um problema porque as plantas que faltam na literatura científica podem ser justamente as mais difíceis de proteger. Se pouco se sabe sobre onde uma planta ameaçada cresce, o que a ameaça ou como ela se reproduz, os conservacionistas têm menos ferramentas para agir antes que seja tarde demais.
Andrade e seus colegas não defendem que todas as plantas ameaçadas devam receber a mesma atenção. Em vez disso, demonstram que o padrão atual de publicação científica não é neutro. Instituições de pesquisa, financiadores, periódicos e cientistas contribuem para moldar quais espécies se tornam visíveis, valorizadas e protegidas. Se a ciência é uma das ferramentas que utilizamos para prevenir a perda de plantas, então ela precisa observar com mais atenção as espécies que ainda aguardam nas sombras.
LEIA O ARTIGO:
Andrade RS, Brown MJM, Freitas L, Nic Lughada EM. 2026. As plantas mais ameaçadas recebem menos atenção científica. Plantas, pessoas, planeta. https://doi.org/10.1002/ppp3.70216
Tradução para espanhol e português de Erika Alejandra Chaves-Diaz.
Foto de capa: Alcantarea imperialis, Uma espécie de bromélia vulnerável. Foto por Barbara Weneck (iNaturalista, CC BY-NC 4.0).
