À medida que as mudanças climáticas se tornam cada vez mais evidentes no dia a dia, uma palavra continua a ressurgir nas discussões: carbono. Esse elemento compõe os gases de efeito estufa — como o dióxido de carbono e o metano — que são liberados na atmosfera pela indústria, agricultura e mudanças no uso da terra, impulsionando o aquecimento global. Consequentemente, grande parte da discussão sobre as mudanças climáticas gira em torno de uma questão fundamental: como podemos impedir que mais carbono chegue à atmosfera?
Uma das respostas reside na própria natureza. As plantas fixam o dióxido de carbono e o convertem em açúcares para alimentar seu crescimento, armazenando carbono em seus tecidos. Por essa razão, a conservação da vegetação nativa e a restauração de áreas degradadas tornaram-se estratégias essenciais na luta contra as mudanças climáticas. As florestas têm estado na vanguarda dessa discussão, pois é evidente que as árvores — imponentes e com densos tecidos lenhosos — são importantes reservatórios de carbono.
Em zonas úmidas, no entanto, os solos são encharcados e pobres em oxigênio, de modo que a matéria vegetal morta se decompõe muito lentamente, formando espessas camadas de material rico em carbono conhecido como turfa. As turfeiras armazenam uma quantidade desproporcional de carbono: Com apenas 3% da superfície da Terra, elas armazenam 21% do carbono global do solo.No entanto, também são importantes fontes naturais de metano, um potente gás de efeito estufa. Essa dupla função — como sumidouros de carbono e fontes de gases de efeito estufa — significa que até mesmo pequenas mudanças no funcionamento desses ecossistemas podem ter consequências globais.

Ainda assim, muito do que sabemos sobre turfeiras vem de regiões frias do norte ou de florestas tropicais úmidas, onde a umidade constante ajuda a preservar o carbono. Até recentemente, os cientistas presumiam que ambientes com fortes sazonalidades dificilmente sustentariam a formação significativa de turfeiras. Mas um estudo recente liderado por Larissa S. Verona, publicado em New Phytologist, sugere o contrário.
A equipe de pesquisa trabalhou em diversas áreas úmidas dentro e ao redor do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, uma das maiores áreas de conservação do Cerrado no centro do Brasil. Eles se concentraram em dois tipos de áreas úmidas: brejos dominados por palmeiras, conhecidos localmente como veredas, e campos abertos alagados alimentados por água subterrânea, conhecidos como... campos úmidos.

Para entender quanto carbono esses ecossistemas armazenam, os pesquisadores extraíram amostras profundas de solo, chegando a até quatro metros de profundidade. Analisando cada camada, eles reconstruíram como o carbono se acumulou ao longo do tempo. Também mediram a biomassa vegetal acima e abaixo do solo para estimar o carbono total armazenado em cada local. Além disso, examinaram a composição química do solo para avaliar a “estabilidade” — ou seja, a facilidade com que o carbono se decompõe — e utilizaram [métodos/técnicas/etc.] para determinar a quantidade de carbono armazenada. datação por radiocarbono para determinar a sua idade.
Para entender como esses pântanos se comportam hoje, a equipe também mediu as emissões de gases de efeito estufa. Usando câmaras seladas colocadas na superfície do solo, eles monitoraram o dióxido de carbono e o metano liberados do solo em diferentes estações do ano, o que permitiu acompanhar como as emissões mudaram ao longo do ano.

Essas medições revelaram que os solos dessas áreas úmidas armazenam quantidades extraordinárias de carbono, mais de 1,100 toneladas por hectare, superando em muito a maioria das vegetações de savana e rivalizando até mesmo com algumas das turfeiras tropicais mais conhecidas do mundo. Notavelmente, 96% desse carbono está armazenado em espessas camadas de solo, e não na vegetação, graças ao lençol freático raso que mantém o solo úmido durante grande parte do ano. A datação por radiocarbono mostrou que esse material vem se acumulando há milhares a dezenas de milhares de anos, com alguns depósitos com mais de 20,000 anos. De acordo com as estimativas dos autores, essas áreas úmidas cobrem aproximadamente 16.7 milhões de hectares, tornando-as um componente importante e anteriormente subestimado da paisagem de carbono do Brasil. Em entrevista à Botany One, Verona comentou:
“O carbono só pode ser armazenado nesses sistemas em condições de inundação, que criam ambientes anóxicos que retardam a decomposição. Portanto, o acúmulo e a preservação de carbono a longo prazo, ao longo de milhares de anos, sugerem que a dinâmica hidrológica dessas áreas úmidas permaneceu relativamente estável em longos períodos de tempo.”
Se secas prolongadas ou intensas tivessem ocorrido com frequência no passado, esse carbono armazenado provavelmente teria sido exposto ao oxigênio e se decomposto, impedindo seu acúmulo a longo prazo. Assim, a presença de carbono muito antigo indica que esses ecossistemas mantiveram condições de inundação persistentes ao longo do tempo.

Apesar dessa longa história, a análise química revelou uma vulnerabilidade crucial. Uma vez que a vegetação de veredas e campos úmidos Sendo predominantemente herbácea, a matéria orgânica é relativamente rica em celulose e hemicelulose, compostos que os micróbios conseguem decompor facilmente, tornando-a mais frágil do que a turfa de outras regiões tropicais. Em contrapartida, muitas turfeiras tropicais contêm maiores quantidades de lignina, um composto mais resistente à decomposição.
Essa diferença ficou clara quando os pesquisadores mediram as emissões de gases de efeito estufa. Os pântanos do Cerrado liberaram grandes quantidades de dióxido de carbono, principalmente durante a estação seca, quando a queda do nível da água permite a entrada de oxigênio no solo e acelera a decomposição. O metano seguiu um padrão diferente: as emissões foram mais altas em áreas permanentemente alagadas, mas puderam cair para quase zero durante os períodos secos em locais sazonalmente alagados. Notavelmente, cerca de 70% das emissões totais ocorreram durante os meses secos, transformando brevemente esses ecossistemas de sumidouros de carbono em fontes de carbono. Verona explica que a dinâmica tanto do carbono quanto do metano é fortemente controlada pelo nível da água, que, por sua vez, afeta a presença de condições anóxicas.As emissões de dióxido de carbono são impulsionadas pela decomposição aeróbica e são suprimidas em condições de lençol freático elevado devido à disponibilidade limitada de oxigênio. Nessas condições de inundação e anoxia, os microrganismos anaeróbicos tornam-se dominantes, incluindo aqueles que produzem metano. Durante a estação seca, à medida que o lençol freático diminui, as condições anóxicas são reduzidas ou eliminadas. Essa mudança promove a decomposição aeróbica, aumentando as emissões de dióxido de carbono e, simultaneamente, reduzindo a produção de metano.".
Como esses processos estão intimamente ligados à disponibilidade de água, quaisquer alterações na hidrologia, como mudanças nas chuvas, aumento das temperaturas, extração de água subterrânea ou conversão do uso da terra, podem perturbar as condições que mantêm o carbono armazenado. Em outras palavras, o carbono armazenado ao longo de milênios poderia ser liberado muito mais rapidamente sob crescente pressão ambiental.

Em conjunto, as descobertas apresentam os pântanos do Cerrado como um aliado climático e um risco potencial. À medida que a agricultura se expande, as águas subterrâneas são desviadas e as secas se intensificam, esses sistemas podem se aproximar de um ponto de inflexão em que o armazenamento de carbono a longo prazo dá lugar a emissões rápidas. O que torna isso especialmente urgente é que eles têm sido amplamente afetados. negligenciadas nas estratégias climáticas que priorizam as florestas, deixando um importante reservatório de carbono desprotegido.. Salvaguardando veredas e campos úmidos Será necessário reconhecer seu valor oculto, não apenas por sua biodiversidade, mas também como reservas críticas de carbono em um dos biomas mais ameaçados do mundo.
LEIA O ARTIGO:
Verona LS, Zanne AE, Trumbore S, et ai.2026. Vastos solos turfosos e orgânicos negligenciados no Cerrado brasileiro: armazenamento, dinâmica e estabilidade do carbono. New Phytologist. https://doi.org/10.1111/nph.71027
Foto de capa: veredas no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros. Foto de Guilherme Alencar.
