Quando pensamos em polinização, vêm à mente diferentes histórias de animais visitando flores em busca de pólen, néctar ou outros recursos. Nessas histórias, geralmente vemos polinizadores visitando livremente diferentes flores, atraídos por suas cores vibrantes, aromas requintados ou néctar doce. Mas Aristolóquia reescreve o roteiro: essas flores atraem polinizadores com falsas promessas e depois os prendem lá dentro por tempo suficiente para que a polinização aconteça.
As flores de Aristolóquia são polinizadas por moscas. As moscas são atraídas pelo cheiro da carne em decomposição que produzem, imitando os locais onde esses insetos se alimentam ou depositam seus ovos. À medida que avançam na estrutura tubular dessas flores, as moscas não conseguem voar de volta para fora, forçando-as a continuar avançando até atingirem a câmara onde se encontram as estruturas portadoras de pólen e óvulos. Para construir essa estrada de mão única, diferentes autores sugeriram que as flores dependem de estruturas especializadas semelhantes a pelos em suas superfícies, que impedem os polinizadores de se moverem livremente. Ainda assim, nenhum estudo até o momento forneceu evidências experimentais sobre como essas estruturas influenciam a remoção de pólen e a produção de frutos — dois processos principais que nos indicam a eficácia da polinização.

Um novo estudo de Carlos A. Matallana-Puerto investiga como pelos especializados chamados “captura de tricomas“garantir a polinização em Aristolochia esperanzae, uma espécie do Cerrado brasileiro. Primeiramente, eles observaram como as flores mudavam desde o momento em que se abriam até o momento em que os polinizadores saíam da flor, concentrando-se em quando as estruturas portadoras de pólen e óvulos se tornavam ativas e se havia alguma alteração nos tricomas aprisionadores. A equipe também avaliou a densidade de tricomas aprisionadores nas diferentes partes das flores. Essa descrição detalhada permitiu aos pesquisadores comparar sua estrutura e distribuição em toda a flor.
Por fim, os pesquisadores testaram se esses tricomas eram indispensáveis para capturar polinizadores. Para isso, removeram os tricomas de algumas flores e observaram quantas moscas entraram e ficaram presas, e se isso diferia das flores deixadas inalteradas. Além disso, examinaram como a presença ou ausência de tricomas afetava a quantidade de grãos de pólen que permaneciam nas flores após a visita dos polinizadores e quantos frutos eram produzidos por flores sem tricomas e inalteradas.
Cada Aristolochia esperanzae flor durou cerca de 30 horas e, desde o momento em que atingem a maturidade, as estruturas portadoras do óvulo já estão ativas. Nesse ponto, os polinizadores que entram na flor não conseguem escapar do interior da flor, pois o caminho a seguir é cada vez mais coberto por tricomas aprisionadores densamente compactados que apontam para dentro e são revestidos de cera — uma jornada de retorno que é virtualmente impossível para os polinizadores navegarem. Após 24 horas, o pólen é apresentado e, apenas três horas depois, os tricomas aprisionadores murcham, abrindo uma rota de fuga para os polinizadores presos. Enquanto isso, as moscas presas dentro da flor interagem com as anteras da flor e deixam a flor coberta de pólen. Como resultado, os tricomas aprisionadores forçam os polinizadores a permanecerem dentro da flor até que o pólen seja apresentado.

A função de captura desses tricomas foi corroborada pelos experimentos dos autores, pois, com os tricomas intactos, quase metade das moscas visitantes permaneceu presa, enquanto flores sem eles mantiveram mais de sete vezes menos polinizadores presos. Os autores também observaram que esse sistema de captura influencia diretamente o sucesso reprodutivo da planta. Flores com tricomas apresentaram muito menos grãos de pólen após o murchamento, sugerindo uma exportação de pólen bem-sucedida. Mais importante ainda, apenas essas flores produziram frutos, confirmando a polinização bem-sucedida em Aristolochia esperanzae depende inteiramente de sua armadilha peluda.
Gravações de campo mostram como os polinizadores ficam presos em flores com tricomas, enquanto aqueles que visitam flores sem tricomas conseguem escapar.
Mecanismos de captura semelhantes são encontrados em plantas carnívoras, que usam pelos voltados para baixo e revestimentos de cera para impedir que suas presas escapem. Mas, enquanto as plantas carnívoras capturam insetos para se alimentar, Aristolochia esperanzae faz isso para garantir sua reprodução. Este estudo liderado por Matallana-Puerto fornece a primeira evidência inequívoca do papel de captura desses tricomas, revelando como minúsculas estruturas florais podem acionar mecanismos sofisticados de polinização que garantem que os polinizadores estejam no lugar e na hora certos — mesmo que as plantas não os deixem sem outra opção.
LEIA O ARTIGO:
Matallana‐Puerto, CA, Brito, VL, Kuster, VC, Oliveira, PE e Cardoso, JC, 2024. Sexo, moscas e armadilha para flores: Tricomas de captura e sua função na polinização. Functional Ecology, 38(10), pp.2261-2270.

Carlos A. Ordóñez-Parra
Carlos (ele/dele) é um ecologista de sementes colombiano atualmente fazendo seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, Brasil) e trabalhando como editor científico na Botany One e como oficial de comunicações na International Society for Seed Science. Você pode segui-lo no Bluesky em @caordonezparra.
Foto de capa: Aristolochia esperanzae por Carlos A. Matallana-Puerto.
