As plantas são incrivelmente diversas, assim como os botânicos! Em sua missão de divulgar histórias fascinantes sobre o mundo das plantas, o Botany One também apresenta os cientistas por trás dessas grandes histórias.

Hoje nós temos Dra Rosy MS Isaias, professor do Laboratório de Anatomia Vegetal do Departamento de Biologia Vegetal da Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, Brasil). Sua pesquisa se concentra na anatomia de galhas de planta –as conseqüências que ocorrem em diferentes órgãos das plantas devido à ação de vários insetos ou microrganismos. Notavelmente, Isaias é a primeira mulher negra a alcançar a categoria de maior produtividade do CNPq -órgão governamental brasileiro encarregado de promover o desenvolvimento científico e tecnológico do país.

O que fez você se interessar por plantas?

Intuitivamente, durante minha graduação em Ciências Biológicas, antes mesmo de decidir ser biólogo vegetal, sempre olhei para as plantas como um modelo de estudo para os projetos que a turma deveria realizar. Para os exercícios de matemática e estatística, por exemplo, normalmente tentava encontrar questões relativas a plantas. No meio do curso o que mais me chamou a atenção foram os aspectos microscópicos das plantas. Assim, entrei no mundo da anatomia vegetal, primeiro como monitor, depois como aluno de graduação e, finalmente, como professor.

O que o motivou a seguir sua atual área de pesquisa?

Tive a sorte de encontrar a Profa. Lea Neves e a Profa. Jane Kraus, minhas orientadoras de mestrado e doutorado, respectivamente. Foi a Profa. Lea quem me propôs trabalhar com galhas de insetos em espécies de Ficus quando cheguei ao Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aceitei sem saber exatamente os desafios que enfrentaria. Para minha alegria, fui apresentada às interações planta-inseto sob a perspectiva da anatomia e histoquímica vegetal, a mesma linha de pesquisa da Profa. Jane na Universidade de São Paulo. Até hoje, a anatomia e a histoquímica vegetal têm sido a base da construção da minha carreira acadêmica, pois interconectam a maioria dos aspectos da biologia das galhas.

Qual é a sua parte favorita do seu trabalho relacionada às plantas?

Trabalho com a biologia das plantas e seu potencial para responder ao estresse biótico imposto pelos organismos indutores de galhas, o que é fascinante. Adoro analisar as lâminas sob os diversos tipos de microscópios para encontrar as respostas às novas e velhas questões sobre como os organismos galhadores podem alterar a morfogênese das plantas. Aprendi a encontrar as respostas interpretando os perfis anatômicos e histoquímicos das galhas, tomando as condições sem galhas como controle. As plantas apoiam as nossas vidas em muitos aspectos, e compreender como respondem e se adaptam às tensões ambientais é uma forma de lidar com elas em cenários ambientais em mudança.

Há alguma planta ou espécie específica que intrigou ou inspirou sua pesquisa? Se sim, quais são e por quê?

Uma espécie de planta que me intriga é Copaifera langsdorffiie muitos outros superhosts de herbívoros galhadores. Essas plantas têm potencial para hospedar muitos insetos galhadores, cada um induzindo um morfotipo específico de galhas, de modo que podemos inferir o número de espécies que cada superhospedeiro suporta com base no formato das galhas. Além disso, as diferentes respostas que desenvolvem sob os estímulos das diferentes espécies intrigam à medida que se desenvolvem sob o mesmo potencial morfogenético da planta hospedeira. Às vezes, o conjunto de respostas é convergente; às vezes é divergente e o enigma de como as galhas se desenvolvem fica cada vez mais completo.

Alguns dos diferentes tipos de galhas que podem ser encontrados em Copaifera langsdorfii. Figura de Oliveira et ai. (2008)

Você poderia compartilhar uma experiência ou anedota de seu trabalho que marcou sua carreira e reafirmou seu fascínio pelas plantas?

Tenho muitas histórias interessantes construindo o quebra-cabeça de estímulos, respostas e cascata de eventos envolvidos no desenvolvimento das galhas. O primeiro desencadeamento das espécies reativas de oxigênio, por exemplo, e a seguinte sequência de respostas orquestradas pela síntese de fenólicos no local de desenvolvimento da galha foi um modelo teórico com boa aceitação pelos cecidologistas. No entanto, tive duas experiências maravilhosas, que considero bastante interessantes: as duas espécies de insetos nomeadas em minha homenagem. Representam a importância do meu nome e a contribuição do meu grupo de pesquisa para a Cecidologia, – o estudo das galhas. Eles são o Eriogalococcus isaias, nomeado pelo Prof. Christopher Hodgson do Museu Nacional do País de Gales, e Palaeomystella rosaemariae, nomeado pelo Prof. Gilson Moreira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Que conselho você daria aos jovens cientistas que estão considerando uma carreira em biologia vegetal?

Leia e estude muito. Esteja consciente de seus pontos fracos e trabalhe neles. Não desista. Siga seus sonhos. A biologia vegetal é fascinante e mistérios e desafios ainda estão por descobrir. Você pode encontrar muitos obstáculos em sua carreira, mas se trabalhar duro, poderá construir seu próprio caminho e ficar feliz com sua decisão de ser cientista.

Isaías e seus alunos e colaboradores em visita de campo. Foto de Rosy SM Isaias

O que as pessoas geralmente erram sobre as plantas?

Suponho que muitas pessoas vejam as plantas como banais e desinteressantes e a botânica como uma série de nomes a serem memorizados, mas uma vez que começamos a observar, prestando atenção aos ciclos e belezas das plantas, estudando e aprendendo como elas sobrevivem a múltiplos ataques, podemos estar convencidos de que elas não estão no planeta apenas para nosso prazer. Talvez possamos começar a respeitar esses seres. Precisamos deles para o nosso conforto e sobrevivência, e devemos estar conscientes disso em breve, à medida que o planeta clama por equilíbrio.

Carlos A. Ordóñez-Parra

Carlos (ele/ele) é um ecologista de sementes colombiano, atualmente fazendo seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, Brasil) e trabalhando como Editor Científico na Botany One e Editor de Mídia Social na Pesquisa em Ciência de Sementes. Você pode segui-lo no X e BlueSky em @caordonezparra.