Imagine que você está fazendo uma trilha de dois dias pelas savanas do Cerrado no centro do Brasil. No primeiro dia, você vê um evento de fogo consumindo todas as plantas da paisagem, com chamas de vários metros de altura. Você não se surpreende, pois já sabe que o fogo faz parte da dinâmica natural desse ecossistema. No dia seguinte, você volta e percorre o mesmo caminho de antes. Naturalmente, você espera encontrar uma paisagem desolada e completamente coberta por cinzas. Em vez disso, você vê várias plantas começando a florir! Isso pode soar como o mito grego e egípcio da ave Fênix que renasce de suas cinzas, mas neste caso é uma planta, e está no Brasil, e é verdade!

Fogo no Cerrado brasileiro consumindo toda a vegetação acima do solo. Foto de Rogério V. S. Gonçalves and João C. F. Cardoso.

Um encontro inesperado com espécies de floração rápida ocorreu com a Dr. Natashi AL Pilon (@natashipilon Ela deu uma entrevista para o Botany One e nos disse que, como bióloga, sempre gostou de ir a áreas recentemente queimadas para ver como as plantas e os animais respondiam ao fogo. No entanto, dessa vez ela foi a campo no dia seguinte após um evento de fogo controlado, uma prática comum em ecossistemas propensos ao fogo como o Cerrado. Para sua surpresa, ela encontrou não uma, mas duas espécies começando a produzir inflorescências em menos de 24 horas: Rhynchospora confusa e Rhynchospora terminalis (ambas da família Cyperaceae). Notavelmente, essa rápida floração já era conhecido for Bulbostylis paradoxa, outra espécie do Cerrado pertencente à mesma família. Essa descoberta é de grande importância porque sugere que essa floração rápida não é incomum nesse ecossistema.

As espécies de Cyperaceae de floração rápida do Cerrado que florescem em menos de 24 horas após o fogo. Da esquerda para a direita: Bulbostylis paradoxa, Rhynchospora confusa e Rhynchospora terminalis. Fotos de Alessandra Fidelis, Natashi AL Pilon, e Rafael S. Oliveira, respectivamente.

Pilon trabalha na região do Cerrado há vários anos e nunca havia conseguido identificar as espécies que estavam sempre na forma vegetativa, até que o fogo revelou as flores! É raro encontrar indivíduos dessas espécies florescendo sem o estímulo do fogo. De fato, embora elas possam ser encontradas em grande parte do Cerrado, há poucas amostras de herbário e a maioria delas tem cicatrizes de queima, o que indica que encontrar essas espécies florescendo é mais provável após o fogo. Isso sugere que os indivíduos podem ficar sem florescer por vários anos, apenas esperando seu momento de queimar! Mas afinal, qual é a vantagem de florescer tão rapidamente? Pilon e seus colaboradores sugerem que os benefícios podem estar relacionados a uma melhor exploração dos recursos associados às condições de pós-fogo. Por exemplo, o fato de serem as primeiras flores a aparecerem em áreas depois do fogo permite que essas plantas monopolizem os polinizadores. Da mesma forma, as sementes produzidas e dispersas terão mais espaço, luz, e nutrientes para crescer.

O fogo não mata essas plantas porque elas têm mecanismos de resistência específicos. Rhynchospora confusa e Bulbostylis paradoxa têm um caudex, bem desenvolvido acima do solo, um tipo de caule cujas bainhas das folhas permanecem e protegem os botões. Por outro lado, Rhynchospora terminalis tem um rizoma subterrâneo resistente protegido por bainhas mortas. O que permanece um mistério é o mecanismo fisiológico que desencadeia essas respostas rápidas. Os botões florais já estão lá e só crescem depois do fogo, ou as plantas os produzem desde o início? Quais hormônios estão envolvidos no processo?

Já estamos na década de 2020, e uma pergunta permanece: por que ninguém notou isso durante as várias décadas de pesquisa anteriores? Pilon sugere que a flora herbácea e as formações abertas do Cerrado ainda são negligenciadas e que a maioria das pesquisas tem sido realizada com espécies lenhosas. No entanto, as formações abertas têm um papel fundamental no funcionamento do ecossistema, apresentando uma biodiversidade única e importante para a conservação do Cerrado como um todo, e com muitas histórias fascinantes e inéditas para a ciência. Segundo Pilon, é provável que existam outras espécies com esse comportamento no Cerrado. Quando perguntada se essa floração rápida de um dia ocorre em outras plantas do mundo, Pilon disse que, embora ainda não tenha sido relatado, é possível que esse fenômeno também ocorra em diferentes ecossistemas propensos ao fogo uma vez que muitas plantas têm morfologias semelhantes às plantas brasileiras, especialmente algumas Cyperaceae.

Os campos do Cerrado como exemplo dos tipos de vegetação aberta do bioma que abrigam uma biodiversidade única, como as Cyperaceae de floração rápida. Foto de Natashi A. L. Pilon

A floração massiva pós-fogo não é incomum em ecossistemas propensos ao fogo e já foi relatada para centenas de espécies do Cerrado. Então, o que há de tão especial nessas "plantas Fênix" que florescem rapidamente em menos de 24 horas? Além de serem simplesmente incríveis, elas abrem novos caminhos de pesquisa e mostram um caso extremo de adaptação. Devido à fragmentação e à perda de habitat no Cerrado, o fogo natural causado por raios se tornou incomun. Assim, essas plantas podem sofrer extinção local sem o fogo devido a problemas demográficos e ao aumento na densidade de plantas lenhosas. Dessa forma, Pilon sugere que o fogo controlado é importante para a manutenção dessa biodiversidade. Como o fogo está presente no Cerrado há milhares de anos, isso fez com que as espécies adaptassem suas histórias de vida a esse fenômeno recorrente e natural. Como Pilon sabiamente diz: <em>"O fogo não é um distúrbio, mas uma parte natural do sistema".</em> Os resultados da pesquisa de Pilon e sua equipe mostram como a curiosidade de uma botânica pode gerar histórias fascinantes sobre o funcionamento dos ecossistemas e como esse conhecimento pode nos ajudar a conservá-los.

LEIA O ARTIGO:

Pilon, NA, Freire, CT, Oliveira-Alves, MJ, & Oliveira, RS (2023). Speedy blooming in Cerrado after fire is not uncommon: New records of Cyperaceae species flowering 24 h after burning. Austral Ecology. https://doi.org/10.1111/aec.13326


Um jovem bonito com um sorriso amigável. Ele está segurando racemos amarelos brilhantes que caem de suas mãos como uma chuva de gotas de creme.

João CF Cardoso é um ecólogo brasileiro. Sua pesquisa concentra-se nas interações entre plantas e animais e entre plantas e o meio ambiente, especialmente no Cerrado brasileiro. Especializado em polinização, ele é apaixonado pela história e história natural das plantas e tem grande interesse por interações raras e específicas.