A vida amorosa pode ser bastante difícil para muitas espécies animais. Das fêmeas ferozes falaropos e jaçanãs lutando pelos machos mais confiáveis ​​para criar seus filhotes, para cobras machos e aranhas bloqueando ciosamente os tratos reprodutivos de seus parceiros com substâncias viscosas ou até mesmo seus próprios pênis mutilados, para gananciosos libélulas e choco que eliminam o esperma de qualquer rival previamente armazenado pelas fêmeas durante o ato sexual: a batalha para deixar descendentes parece bastante difundida no reino animal. Mas zoologia não é exatamente o foco principal deste blog, então e as plantas?

A vida sexual de uma planta é muito diferente da nossa. Em primeiro lugar, a maioria das plantas está perpetuamente presa ao solo e é incapaz de se envolver em lutas vigorosas por um parceiro para acasalamento. De fato, elas geralmente dependem de vizinhos móveis — seja vento, água ou qualquer um dos diversos polinizadores animais — para transportar suas células reprodutivas masculinas, para que possam alcançar um óvulo, fundir-se com ele em um embrião e, eventualmente, dar à luz uma planta totalmente nova. Mas depender de um visitante externo para a reprodução traz algumas incertezas. Por exemplo, os polinizadores podem visitar muitas flores de muitas plantas diferentes em um curto espaço de tempo e, assim, acabar carregando algumas misturas de pólen desordenadas em seus corpos. Como uma planta pode garantir que seu próprio pólen será o único a chegar às partes femininas de outras flores para se tornar pai?

Pode-se pensar que as plantas devem se contentar com estratégias bastante passivas para aumentar suas chances de reprodução, como produzir mais pólen ou mais flores, ou torná-las mais atraentes para os polinizadores — tudo isso demanda bastante energia. Mas, longe disso, uma equipe de pesquisadores do Brasil e da África do Sul documentou recentemente um mecanismo emocionante de substituição competitiva de pólen pela primeira vez entre plantas com flores, semelhante à remoção de esperma em animais.

A espécie estudada foi Hypenia macrantha, um primo distante sul-americano da hortelã, lavanda e manjericão. Quando chega a hora de se reproduzir, esta erva exibe suas belas flores tubulares vermelhas ao redor cerrado brasileiro, atraindo diversas espécies de beija-flores para auxiliar em sua polinização. Mas as relações íntimas desta planta vão muito além da típica história de polinização por pássaros. O design elegante de suas flores aparentemente delicadas guarda um segredo para garantir a paternidade: suas anteras, as estruturas masculinas portadoras de pólen, estão compactadas dentro de um lóbulo pétala especializado que é acionado como uma catapulta com a visita de um beija-flor, lançando o pólen com força sobre o bico da ave.

Vídeo do Eurekalert.

Esse tipo de estratégia de lançamento de pólen é chamado de "polinização explosiva". Já havia sido documentado em diversas linhagens de plantas polinizadas por todos os tipos de animais, como Orquídeas e parentes de urze. Porém, Dr. Bruce Anderson e seus colegas foram os primeiros a testar experimentalmente se a polinização explosiva poderia funcionar para remover pólen rival de flores visitadas anteriormente dos corpos dos polinizadores. 

Para isso, eles pegaram alguns caules floridos de Hypenia macrantha ao laboratório e simularam visitas florais usando um crânio de beija-flor. Antes de cada teste, eles aplicavam manualmente pólen na região do bico onde a planta o depositaria naturalmente — como se o beija-flor estivesse chegando à flor após visitar outra planta da mesma espécie, ou seja, uma potencial competidora. Esse pólen experimental havia sido previamente marcado com pontos quânticos fluorescentes UV. uma nova tecnologia promissora que permite rastrear grãos de pólen individuais. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram contar e comparar o número de grãos de pólen marcados presos ao bico antes e depois de ele ser atingido pelas próprias flores.

Suas descobertas foram notáveis. Flores explosivas removeram quase o dobro de pólen marcado em comparação com flores previamente ativadas. Além disso, maiores quantidades de pólen disparadas com precisão pelas anteras da catapulta resultaram em menos grãos de pólen marcados deixados no bico do beija-flor. Isso sugere que a força dos seus projéteis de pólen permite Hypenia macrantha para desalojar uma grande parte do pólen concorrente transportado por seus polinizadores, conferindo assim uma clara vantagem na busca pela reprodução. Afinal, de acordo com os vídeos gravados pelos autores, o movimento balístico das anteras desta espécie revelou-se um dos movimentos vegetais mais rápidos já registrados!

Esta pesquisa abre portas para uma série de questões interessantes sobre a competição reprodutiva e a evolução das plantas. Por exemplo, ser hermafrodita traz consigo alguns problemas que a maioria dos animais jamais compreenderia. Após a delicada fase masculina, as flores de Hypenia macrantha entrar em uma faceta feminina mais silenciosa, esperando que os beija-flores tragam consigo o pólen de outra pessoa para fecundar seus óvulos, permitindo que eles produzam sementes. Poderiam as flores masculinas competitivas de uma planta interferir em seu próprio objetivo igualmente relevante de se tornar mãe? Aliás, uma planta poderia estar descartando seu próprio pólen se um beija-flor visita suas flores de maneira sequencial? Será que essas aves têm vontade de fazer isso depois de serem atingidas pela primeira flor que visitam? E qual a importância dessas batalhas de pólen para a evolução da polinização explosiva? 

A lista de perguntas poderia continuar, mas há uma coisa que todos podemos ter certeza: a vida sexual das plantas é mais dramática do que pensamos e nunca deixará de nos surpreender. 

LEIA O ARTIGO

Anderson, B., Sabino-Oliveira, A., Matallana-Puerto, C., Arvelos, C., Novaes, C., de Cario Calaça, D., Schulze-Albuquerque, I., Santos Pereira, J., Borges, J., de Melo, L., Consorte, P., Medina-Benavides, S., de Oliveira Andrade, T., Monteiro, T., Marcelo, V., Silva, V., Oliveira, P., e de Brito, V. (2024) Guerras de Pólen: Polinização Explosiva Remove Pólen Depositado de Flores Anteriormente Visitadas. O Naturalista Americano, 204(6), pp. 616-625. Disponível em: https://doi.org/10.1086/732797.

Andrés Pereira-Guaqueta

Andrés é um biólogo colombiano fascinado pelas interações entre plantas e animais e ávido por compartilhar conhecimento científico fora da academia. Ele está atualmente concluindo seu mestrado na Universidade Nacional Autônoma do México. Seus principais interesses de pesquisa giram em torno das relações entre plantas com flores e seus polinizadores animais, e como eles respondem às rápidas mudanças do nosso mundo. 

Tradução espanhola de Andrés Pereira-Guaqueta.

Foto de capa: Hypenia macrantha por Mauricio Mercadante.