As plantas são incrivelmente diversas, e os botânicos também! Em sua missão de espalhar histórias fascinantes sobre o mundo das plantas, a Botany One também apresenta os cientistas por trás dessas grandes histórias.
Hoje, temos a Dra. Patricia Silva-Flores, uma chileno Professor Assistente do Centro de Investigação de Estudos Avançados del Maule (CIEAM), Universidade Católica del Maule em Talca, Chile. Ela lidera o Grupo de Ecologia Fúngica e Micorrízica, cuja pesquisa se concentra em simbioses entre plantas e fungos, diversidade fúngica e micorrízica, restauração ecológica, agricultura sustentável e interseções entre arte e ciência. O trabalho de Silva-Flores conecta ciência básica e aplicada por meio de projetos interdisciplinares desenvolvidos na América Latina e na Europa. Como mentora apaixonada e cientista de extensão, ela integra o treinamento de alunos e o engajamento público em todas as etapas do processo de pesquisa. Além disso, atualmente atua como Diretora de Comunicações e membro do conselho da Sociedade Internacional de Micorrizas (IMS), e colaborar com iniciativas globais como a Rede Sul-Americana de Pesquisa Micorrízica e Sociedade para a Proteção de Redes Subterrâneas (SPUN)Com doutorado em Botânica, mestrado em Evolução, Ecologia e Sistemática e graduação em Biologia, sua trajetória acadêmica levou Silva-Flores a diversos países, sempre defendendo fungos e micorrizas como componentes essenciais dos sistemas naturais. Você pode acompanhar seu trabalho em @silvafloresdra.

O que fez você se interessar por plantas?
Meu interesse por plantas começou quando comecei a estudar biologia e descobri a fascinante flora da floresta esclerófila do Chile Central. Fiquei impressionado ao descobrir que ela possui um endemismo vegetal tão alto que muitas de suas espécies não existem em nenhum outro lugar do mundo. Ao mesmo tempo, fiquei impressionado com o quão ameaçado esse ecossistema único está devido à atividade humana. Estávamos destruindo algo insubstituível.
Embora eu tenha ingressado inicialmente em um laboratório de ecologia aquática, movido pela minha curiosidade por questões ecológicas, meu caminho mudou quando comecei a buscar um foco de pesquisa que era pouco explorado e, ao mesmo tempo, algo pelo qual eu realmente me apaixonava. Foi então que os fungos, especialmente os fungos micorrízicos, me encontraram.
Fiquei fascinado pelas micorrizas, as relações simbióticas entre raízes de plantas e hifas de fungos. Essa conexão naturalmente me trouxe de volta às plantas, mas desta vez através da lente das interações subterrâneas. Tudo se encaixou. Decidi concentrar minha pesquisa na ecologia de fungos micorrízicos em florestas esclerófilas, sempre com o objetivo de contribuir para a conservação e restauração deste hotspot único de biodiversidade.
O que o motivou a seguir sua atual área de pesquisa?
O que realmente me motivou foi a falta de pesquisa e conhecimento sobre micorrizas e fungos micorrízicos, uma simbiose e organismos essenciais para o funcionamento dos ecossistemas naturais do meu país. Os esforços de conservação e restauração em ecossistemas terrestres, como a floresta esclerófila, tradicionalmente se concentram apenas em plantas, enquanto os fungos simbióticos que as sustentam são frequentemente negligenciados. Aceitar esse desafio foi profundamente importante para mim.
Ao mesmo tempo, acho os fungos absolutamente lindos e repletos de ensinamentos — não apenas científicos, mas também filosóficos, artísticos, ecossociais e educacionais. Eles nos convidam a pensar de novas maneiras. Essa riqueza alimenta minha curiosidade e me mantém inspirado todos os dias, não apenas como cientista, mas como pessoa.

Qual é a sua parte favorita do seu trabalho relacionada às plantas?
Tenho duas partes favoritas. A primeira é sair a campo para coletar amostras e entrar na floresta, que sempre me acolheu tão gentilmente. Estar lá, cercado pelos aromas de diferentes plantas, pela variedade de formatos de folhas, pelos tons de verde, pela temperatura, pelo cheiro da terra, dos fungos... é uma experiência indescritível e enriquecedora, absolutamente poética. Só se pode realmente entendê-la quando se está na floresta.
A segunda é quando observo as raízes coletadas no microscópio. Cada raiz é única, mesmo dentro da mesma espécie de planta. E quando vejo as micorrizas, sinto uma alegria profunda. Enquanto observo, começo a me perguntar: o que esses fungos estão fazendo? Quais espécies estão por trás dessas funções? Que histórias se escondem ali? Esse momento de reflexão e descoberta é algo que realmente valorizo.

Há alguma planta ou espécie específica que intrigou ou inspirou sua pesquisa? Se sim, quais são e por quê?
Embora minha pesquisa tenha se expandido para além da floresta esclerófila, incluindo outras espécies de plantas e outras formações vegetais, tudo começou com algumas das árvores emblemáticas daquele sistema. Elas me inspiraram profundamente, e quero aproveitar esta oportunidade para agradecê-las: Peumus boldus, Lithrea caustica, Quillaja saponaria, Cryptocarya alba, Luma apiculata, Kageneckia oblonga, e Escallonia pulverulenta, por abrir a porta para um mundo fascinante e pouco explorado: as micorrizas a elas associadas. Meu objetivo tem sido não apenas conservar e restaurar essas plantas e outras ligadas à floresta esclerófila, mas também ajudar a preservar suas funções ecológicas, protegendo a integridade de todo o sistema, não apenas sua lista de espécies.
Você poderia compartilhar uma experiência ou anedota de seu trabalho que marcou sua carreira e reafirmou seu fascínio pelas plantas?
Uma das experiências mais significativas da minha carreira foi realizar pesquisas interdisciplinares e de divulgação científica na intersecção entre ciência e arte. Por meio disso, vi como o trabalho que fazemos no grupo de pesquisa que lidero pode ter um impacto real nas comunidades conectadas aos ecossistemas que estudamos. O uso de diversas formas de comunicação, como a arte, ajuda a diminuir a distância entre cientistas e não cientistas. Isso nos coloca em um patamar mais igualitário, onde podemos compartilhar diferentes formas de conhecimento, e nos lembra que o que estamos pesquisando tem significado não apenas para nós, como cientistas, mas também para a sociedade em geral.
Que conselho você daria aos jovens cientistas que estão considerando uma carreira em biologia vegetal?
Acredito que este conselho se aplica a qualquer área de pesquisa: para seguir uma carreira científica, é preciso haver uma mistura de paixão e uma noção clara da importância da sua pesquisa. Quando ambos estão presentes, profundo interesse e relevância justificada, você terá a convicção de continuar e não desistir. O caminho da pesquisa traz muitas satisfações, mas também traz desafios. Nos momentos mais difíceis, essa convicção interior se torna seu combustível, é o que mantém sua chama acesa e ilumina o caminho a seguir.
O que as pessoas geralmente erram sobre as plantas?
Mais do que errado, o que muitas pessoas não percebem é que as plantas, incluindo suas raízes, abrigam um microbioma complexo repleto de bactérias e fungos absolutamente vitais para sua sobrevivência e funcionamento. Se tivéssemos uma lupa superpoderosa e olhássemos mais de perto, veríamos que as plantas nunca estão verdadeiramente sozinhas. As micorrizas são formadas por fungos que vivem em estreita relação com as raízes das plantas, criando estruturas fascinantes que, sob certas condições ambientais, ajudam as plantas a absorver melhor os nutrientes, protegem-nas contra diversos estresses, aumentam a diversidade das comunidades vegetais, facilitam a ciclagem de nutrientes nos ecossistemas e muito mais. É um mundo oculto esperando para ser descoberto e admirado!


Carlos A. Ordóñez-Parra
Carlos (ele/dele) é um ecologista de sementes colombiano atualmente fazendo seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, Brasil) e trabalhando como editor científico na Botany One e como oficial de comunicações na International Society for Seed Science. Você pode segui-lo no BlueSky em @caordonezparra.
