Será que o aquecimento global marcará o fim da diversidade vegetal como a conhecemos? Talvez não, se aprendermos com os organismos que já vivem em situações extremas. Regiões áridas, rochosas e escaldantes, por exemplo, podem parecer inóspitas, mas mesmo nesses ambientes hostis, a natureza encontra maneiras de prosperar. É o caso das... Cangas brasileirasFormações ferruginosas únicas no sudeste do Brasil, conhecidas por seus solos extremamente pobres em nutrientes, intensa radiação solar e frequentes incêndios florestais, durante os quais as temperaturas podem ultrapassar os 500 °C. Apesar disso, esses ecossistemas abrigam uma flora singular composta por angiospermas, líquens, hepáticas e musgos que conseguem suportar calor e seca extremos.

Mas até onde vai essa resiliência? Essa foi a pergunta que motivou o estudo de Guilherme Freitas Oliveira e colegas, publicado recentemente em Austral Ecology, que testou, pela primeira vez, a tolerância ao calor das estruturas utilizadas para reprodução vegetativa em Bryum atenense e Campylopus savannarum, dois musgos característicos das Cangas. A equipe expôs essas estruturas a temperaturas de 120 °C, 140 °C e 160 °C por períodos de 5 e 30 minutos, simulando o impacto térmico de incêndios naturais nas Cangas. Por exemplo, a exposição a 160 °C por 5 minutos reproduziu a rápida propagação das chamas durante um incêndio florestal, permitindo aos pesquisadores correlacionar a resistência do musgo com eventos reais de incêndio.

Os resultados são impressionantes. filídeos of Campylopus savannarum Foram utilizadas no experimento, mas não sobreviveram a nenhum dos tratamentos, evidenciando sua alta sensibilidade ao calor e sugerindo que essa espécie é vulnerável aos impactos diretos do fogo. Em contraste, a espécie subterrânea tubérculos of Bryum atenense demonstraram uma resiliência extraordinária. Mesmo após exposição a 160 °C por 5 minutos, temperatura suficiente para carbonizar a maioria das plantas, cerca de 58% dos tubérculos produziram novos tecidos. Além disso, a 120 °C por 30 minutos, a regeneração ultrapassou 60% das amostras. Como resultado, essas estruturas subterrâneas atuam como verdadeiros cofres biológicos resistentes ao calor extremo, representando uma notável adaptação para sobreviver ao fogo.

Espécie e local de estudo. (A) Canga no Monumento Natural Serra da Calçada, Brasil. (B) Campylopus savannarum (seta azul) e Bryum ateniense (seta vermelha). (C) Colônia de Campylopus savannarum(D) Ramos e folhas caducas de Campylopus savannarum (seta azul). (E) Colônia de Bryum atenense(F) Vista da parte inferior de um Bryum ateniense colônia, destacando seus tubérculos (seta vermelha). Figura de Oliveira et ai., (2025).

O estudo registrou o nível mais alto de termotolerância já conhecido para briófitas. propágulos, mostrando como estratégias microscópicas garantem a sobrevivência em ambientes severos. A resistência observada em Bryum atenense pode estar relacionado à presença de compostos lipídicos que atuam como isolantes térmicos e ao baixo teor de umidade dos tubérculos, ambos fatores que reduzem os danos celulares. Os autores também sugerem o envolvimento de proteínas de choque térmico e genes de resposta ao estresse, como os encontrados em musgos do deserto, como... Syntrichia caninervisA compreensão desses mecanismos pode revelar como os genes das primeiras plantas terrestres lidam com o calor extremo e, no futuro, inspirar estratégias de melhoramento genético para tornar as espécies cultivadas mais resistentes ao calor.

Mais do que explicar como esses musgos sobrevivem a incêndios florestais, o estudo oferece uma nova perspectiva sobre a adaptação das plantas às mudanças climáticas globais. Como muitas briófitas são sensíveis ao aumento das temperaturas, compreender sua termotolerância é crucial para prever quais espécies podem desaparecer e quais podem persistir. Bryum atenenseAo demonstrarem tamanha resistência, as plantas provam que a evolução já encontrou soluções engenhosas para suportar o calor. Seus tubérculos invisíveis guardam não apenas a próxima geração, mas também a história da resistência de um ecossistema forjado no calor e, talvez, as pistas para o futuro das plantas em um planeta em aquecimento.

LEIA O ARTIGO:

Oliveira, GF, Oliveira, MF, Araújo, CAT, & Maciel‐Silva, AS (2025). Termotolerância em miniatura: Resiliência ao calor de propágulos de musgo de afloramentos rochosos ferruginosos brasileiros. Austral Ecology, 50(9), e70121.

Pablo O. Santos

Pablo é doutorando em Biologia Vegetal pela Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil), onde desenvolve pesquisas sobre estratégias fotoprotetoras e potencial antioxidante de briófitas de afloramentos ferruginosos. Seus interesses de pesquisa estão na intersecção entre fisiologia, ecologia e fitoquímica de briófitas, com ênfase no papel ecológico e nas aplicações biotecnológicas de hepáticas, musgos e antóceros.

Tradução para o português de Pablo O. Santos.