O aquecimento urbano está alterando cada vez mais as condições ambientais nas cidades. Um dos principais fatores é a efeito de ilha de calor urbanaEm cidades onde edifícios, estradas e outras superfícies artificiais absorvem e retêm calor, as cidades ficam mais quentes do que as áreas rurais circundantes. Embora os efeitos desse aquecimento sobre árvores, pássaros e pessoas sejam amplamente discutidos, organismos menores e muitas vezes negligenciados também estão reagindo fortemente. Um novo estudo de Tim Claerhout e seus colegas mostra que líquens e briófitas epífitas, organismos altamente sensíveis à temperatura, umidade e luz, podem revelar como a ilha de calor urbana remodela silenciosamente a biodiversidade urbana.

O estudo examinou as comunidades de líquenes e briófitas que crescem em tílias (TiliaEm três cidades holandesas, os pesquisadores, em vez de se concentrarem apenas nos grandes contrastes entre áreas urbanas e rurais, combinaram dados de biodiversidade com medições microclimáticas feitas diretamente nos troncos das árvores. Essa abordagem possibilitou observar as condições ambientais tal como são vivenciadas pelos próprios organismos.

Tílias negras (Tilia x europaea) em uma cidade holandesa. Foto por Hans Muller (Wikimedia Commons; CC BY-SA 4.0).

No total, foram registradas 107 espécies em 303 árvores amostradas, incluindo líquens e briófitas com diferentes preferências ecológicas. Os resultados mostraram que a biodiversidade não responde ao aquecimento urbano de forma linear simples. Os líquens apresentaram maior diversidade em níveis intermediários de intensidade da ilha de calor urbana, enquanto áreas muito frias e muito quentes abrigaram menos espécies. As briófitas, por sua vez, seguiram um padrão diferente: sua diversidade aumentou gradualmente ao longo do gradiente térmico, sugerindo respostas ecológicas distintas entre os dois grupos que são frequentemente estudados em conjunto.

Além de alterar o número de espécies, o aquecimento urbano também remodelou a composição das comunidades. As áreas urbanas passaram a ser dominadas principalmente por xerofítico, fotofílico e nitrotrófico espécies; em outras palavras, organismos adaptados a ambientes mais secos, luminosos e ricos em nitrogênio, características típicas das cidades modernas. Ao mesmo tempo, espécies associadas a condições mais úmidas e sombreadas tornaram-se menos frequentes à medida que a intensidade da ilha de calor urbana aumentou.

Phaeophyscia orbicularis É uma espécie de líquen típica de ambientes urbanos quentes. Foto por Jacqui Geux (iNaturalista, CC POR 4.0).

Os pesquisadores também identificaram 23 potenciais bioindicadores da ilha de calor urbana, incluindo espécies individuais e associações de espécies que refletem diferentes níveis de aquecimento nas cidades. As áreas mais quentes foram caracterizadas principalmente por musgos acrocárpicos adaptado à dessecação e à alta exposição à luz, como Orthotrichum diaphanum, enquanto espécies associadas a habitats mais úmidos tornaram-se menos comuns. Esses padrões ressaltam o potencial das comunidades epifíticas como ferramentas para o biomonitoramento urbano, capazes de detectar mudanças microclimáticas de forma sensível e integrada, sem depender exclusivamente de sensores meteorológicos.

Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi a demonstração de que o microclima percebido pelos organismos pode diferir das medições climáticas mais abrangentes normalmente utilizadas em estudos urbanos. Sensores colocados diretamente nos troncos das árvores mostraram que, durante o verão, as temperaturas médias e mínimas, bem como a secura do ar, aumentaram em áreas com efeitos de ilha de calor mais acentuados, enquanto a umidade relativa diminuiu. No inverno, as diferenças foram mais sutis, sugerindo que os efeitos da urbanização variam sazonalmente e interagem com fatores como radiação solar, cobertura vegetal e sombreamento.

Orthotrichum diaphanum is Um musgo típico de ambientes urbanos. Foto por Marcin Klisz (iNaturalista, CC BY-NC 4.0).

Os autores também observaram que árvores maiores sustentavam comunidades mais diversas, sugerindo que características estruturais da vegetação urbana podem atenuar parcialmente os efeitos do aquecimento. Ao mesmo tempo, áreas intermediárias ao longo do gradiente urbano tendiam a abrigar comunidades mais equilibradas, possivelmente porque esses locais eram ambientalmente mais heterogêneos.

Em geral, o estudo mostra que a ilha de calor urbana faz mais do que elevar as temperaturas das cidades: ela também altera as espécies que conseguem persistir nesses ambientes. À medida que o aquecimento urbano se intensifica, os líquenes e briófitas podem se tornar aliados valiosos para a compreensão das mudanças nas cidades e para o rastreamento de quais espécies conseguem acompanhar essas transformações silenciosas.

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Claerhout, T.Sparrius, L.Keßler, P.Stech, M. (2026) Ilhas de calor urbanas moldam comunidades epifíticas de líquenes e briófitas. Urban Ecosystems, 29(2). Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11252-026-01930-8.

Tradução para o português de Pablo O. Santos.

Imagem da capa: Evernia Prunastri É um líquen de ambientes menos urbanizados. Foto por Ryzhkov Oleg (iNaturalista), CC BY-NC 4.0).