A floração é um processo vital para o sucesso reprodutivo de uma planta, pois as flores atraem polinizadores que facilitam a troca de pólen entre os indivíduos. Em ambientes naturais, espécies nativas têm períodos de floração adaptados ao clima local e à disponibilidade de polinizadores. Mas o que acontece quando espécies invasoras chegam a esses ambientes? Como o período de floração delas se relaciona com o das espécies nativas?
Plantas invasoras representam uma séria ameaça ambiental, pois competem com plantas nativas por recursos como água, luz e nutrientes, levando à instabilidade do ecossistema e à degradação do habitat. Uma vantagem que elas podem ter é florescer em épocas diferentes das espécies nativas, seja florescendo durante períodos de baixa competição ou estendendo sua floração após o término das plantas nativas, garantindo acesso contínuo a polinizadores e recursos.
Considerando este contexto, um estudo publicado recentemente na Annals of Botany por uma equipe de pesquisa espanhola examinou a fenologia de floração de espécies de plantas invasoras no Florestas Mistas Cantábricas ecorregião e a comparou com a de espécies nativas. Esta região está localizada entre os climas mediterrâneo e oceânico da Espanha e Portugal e as florestas temperadas e mais úmidas da Europa Ocidental. Esta área é considerada um hotspot de biodiversidade, mas está sob forte pressão de espécies invasoras, especialmente em áreas modificadas pelo homem.
Os pesquisadores compararam os períodos de floração de 175 espécies invasoras com os de espécies nativas. Para estabelecer esta lista de espécies invasoras, os cientistas compilaram dados de várias fontes, incluindo bancos de dados globais, como o Informações sobre a biodiversidade global Ffacilidade (GBIF) e INaturalista, juntamente com outras fontes, como relatórios técnicos, projetos de conservação e teses.

Os pesquisadores descobriram que as espécies invasoras começam a florescer cerca de um mês depois das espécies nativas e mantêm a floração por mais tempo. Enquanto as espécies nativas florescem entre abril e julho, as espécies invasoras florescem de maio a setembro. Essas diferenças foram ainda mais pronunciadas em áreas urbanas e perturbadas. Além disso, as espécies invasoras de regiões tropicais e temperadas apresentaram um desequilíbrio maior em comparação com as espécies nativas: floresceram mais tarde, murcharam mais tarde e mantiveram suas flores por mais tempo. As espécies invasoras originárias do Mediterrâneo, por outro lado, comportaram-se de forma semelhante às espécies nativas.
Segundo os pesquisadores, este é o primeiro estudo a comparar, em larga escala, os períodos de floração de plantas nativas e invasoras. A diferença nos períodos de floração pode ajudar as plantas invasoras a evitar a competição direta com as nativas, aproveitando os períodos do ano em que menos flores competem por recursos, como polinizadores, uma ideia conhecida como hipótese do nicho vago. Elas também têm um período de floração mais longo, o que pode ajudar no que vem depois. Lázaro-Lobo e colegas escrevem: “Além disso, produzir flores por um período mais longo pode aumentar as chances de ter sementes disponíveis quando ocorrem as condições ideais para dispersão e estabelecimento.”

A ideia de um nicho vago demonstra como um deslocamento de floração favorece seu estabelecimento. Essas descobertas demonstram que o período de floração é importante no contexto de invasão biológica e que os programas de manejo ambiental precisam considerar a fenologia reprodutiva das plantas para compreender a disseminação de espécies invasoras.
LEIA O ARTIGO:
Lázaro-Lobo, A., Rendueles Fernández, B., Fernández-Pascual, E., González-García, V., & Jiménez-Alfaro, B. (2025). As plantas invasoras têm uma fenologia de floração retardada e mais longa do que as plantas nativas de uma flora ecorregional. Annals of Botany, mcaf078.

Ana Carolina S. Oliveira
Carol é uma bióloga especializada em polinização, fascinada por compreender a escolha dos polinizadores através dos sinais visuais das flores, especialmente como as abelhas interpretam o universo de cores florais. Durante seu doutorado, ela avaliou como a cor das flores modula a reprodução e a estruturação das comunidades de flores oleaginosas e a preferência das abelhas nesse contexto.
Tradução portuguesa de Ana CS Oliveira.
Foto de capa: Crocosmia x crocosmiiflora, de Michael Garlick (Wikimedia Commons).
