As plantas podem passar a maior parte da vida enraizadas em um único lugar, mas suas sementes podem percorrer distâncias surpreendentes. Esse processo, conhecido como dispersão de sementes, pode parecer uma etapa breve na vida de uma planta, mas está longe de ser um detalhe sem importância. Para uma semente, essa jornada pode significar escapar da competição com outras sementes da mesma planta, chegar a um local mais seguro para crescer ou encontrar áreas onde o clima continue adequado à medida que as condições mudam.
As angiospermas, ou plantas com flores, desenvolveram muitas maneiras de enviar suas sementes pelo mundo. Algumas viajam dentro de animais frugívoros, outras são levadas pelo vento, algumas flutuam na água e há ainda aquelas lançadas por frutos que se abrem como pequenas catapultas. Essas estratégias são conhecidas como modos de dispersão e influenciam onde as plantas vivem, como suas populações permanecem conectadas e como as espécies podem responder às futuras mudanças climáticas.
Há muito tempo, cientistas suspeitam que a dispersão por animais tenha ajudado as plantas com flores a alcançar tamanho sucesso, contribuindo para que se tornassem o grupo vegetal mais diverso e dominante da atualidade. Os fósseis indicam que as sementes e os frutos das primeiras angiospermas costumavam ser pequenos e que a dispersão por animais se tornou mais comum posteriormente, sobretudo durante o Cretáceo, a partir de cerca de 105 milhões de anos atrás. Esse período coincide com uma época em que as florestas estavam mudando e aves e mamíferos assumiam papéis ecológicos cada vez mais importantes. Estudos anteriores também sugeriram que a dispersão pelo vento seria favorecida em ambientes secos e abertos, enquanto a dispersão por animais deveria ser comum em florestas tropicais quentes e úmidas. No entanto, muitas dessas ideias baseavam-se em fósseis, estudos locais ou grupos específicos de plantas. Ainda faltava um teste global que abrangesse milhares de espécies e relacionasse os modos de dispersão à evolução das plantas, à história climática e à geografia atual.

Em um estudo recente publicado em New Phytologist, uma equipe de pesquisa liderada por Lu Jin aborda essa lacuna ao examinar a distribuição global e a história evolutiva dos modos de dispersão de sementes. Para isso, a equipe combinou informações sobre a dispersão de sementes provenientes de diversas fontes disponíveis com dados sobre a distribuição das espécies, suas relações evolutivas e o clima, e classificou cada espécie em uma de quatro categorias: dispersão por animais, pelo vento, pela água ou autodispersão. Ao final, os pesquisadores compilaram um conjunto de dados com 35,131 espécies de plantas com flores pertencentes a 297 famílias — mais de 70% das famílias de angiospermas existentes.
O passo seguinte foi posicionar essas espécies na árvore evolutiva das plantas com flores. Isso permitiu à equipe investigar não apenas quais plantas utilizam cada modo de dispersão atualmente, mas também como essas estratégias podem ter mudado ao longo da evolução. Ao comparar os modos de dispersão atuais com as relações entre as espécies, o estudo reconstruiu os estados ancestrais mais prováveis e estimou quando as linhagens passaram de um modo de dispersão para outro.
Em seguida, os pesquisadores mapearam as espécies e calcularam a frequência de cada modo de dispersão ao redor do mundo. Esses padrões geográficos foram então comparados com o clima atual, o vento, a altitude e estimativas das mudanças climáticas ocorridas desde o Último Máximo Glacial, o período frio de cerca de 21,000 mil anos atrás em que as camadas de gelo alcançaram sua maior extensão.
Por fim, eles utilizaram diversos modelos estatísticos para testar se os modos de dispersão estavam associados à formação mais rápida de espécies ou a taxas menores de extinção. Com essas ferramentas, o estudo pôde avançar dos mapas globais e das árvores evolutivas para uma questão mais ampla: qual foi, de fato, o papel dos modos de dispersão de sementes na evolução das plantas com flores?

Jin e seus colegas descobriram que a história da dispersão de sementes nas plantas com flores esteve longe de ser estática. As primeiras angiospermas provavelmente tinham sementes dispersas por animais ou por autodispersão, mas seus descendentes mudaram repetidamente de modo de dispersão ao longo de milhões de anos. A dispersão pela água era rara e parecia especialmente instável, muitas vezes dando lugar a outros modos de dispersão.
Uma grande mudança começou há cerca de 105 milhões de anos, quando a dispersão por animais se tornou mais comum, com um aumento acentuado por volta de 85 milhões de anos atrás, próximo à época em que as plantas com flores remodelavam muitos ecossistemas terrestres. Essa transformação esteve relacionada a antigas mudanças de temperatura, mas não de forma simples. No início, climas mais quentes estavam associados a um número maior de linhagens que passavam a depender da dispersão por animais. Essas transições, porém, continuaram mesmo quando as temperaturas globais diminuíram, indicando que outras forças, como as transformações nas florestas e a expansão de aves e mamíferos frugívoros, também podem ter sido decisivas.
Surpreendentemente, o estudo não sustentou a antiga ideia de que a dispersão por animais teria ajudado as plantas com flores a se diversificar mais rapidamente. O modo de dispersão ainda pode ser importante em determinados grupos de plantas, mas não parece funcionar como um motor simples da formação de espécies em todas as angiospermas.

Os padrões globais foram mais claros. A dispersão por animais era mais comum nas regiões tropicais quentes, sobretudo na América do Sul e na Ásia tropical. A autodispersão tornou-se mais frequente em latitudes mais altas e frias. A dispersão pelo vento atingiu seu máximo em latitudes intermediárias e esteve mais fortemente relacionada à precipitação do que à própria velocidade do vento. Regiões que haviam passado por mudanças climáticas mais intensas desde o Último Máximo Glacial também tendiam a abrigar mais espécies dispersas por animais e pelo vento.
Em conjunto, esses resultados sugerem que a dispersão de sementes é moldada por uma longa história evolutiva, pelo clima atual e pelas grandes mudanças climáticas do passado, e não por uma única regra universal. Não se trata de uma história simples em que uma estratégia é melhor do que outra, mas de um registro das respostas das plantas às florestas em transformação, aos climas em mudança e aos animais, ventos e águas ao seu redor. Uma planta pode permanecer enraizada em um lugar, mas seu futuro talvez dependa de onde suas sementes conseguem chegar e de como chegam até lá.
LEIA O ARTIGO:
Jin L, Li M, Wang Z, <em>et al.</em>. 2026. Evolutionary history and the global distribution of seed dispersal modes in angiosperms. New Phytologist 250: 1217-1230. https://doi.org/10.1111/nph.70967
Tradução para espanhol e português por Erika Alejandra Chaves-Diaz
Foto de capa: Calotropis gigantea by Dinesk Valke (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0).
