As plantas são incrivelmente diversas, e os botânicos também! Em sua missão de espalhar histórias fascinantes sobre o mundo das plantas, a Botany One também apresenta os cientistas por trás dessas grandes histórias.

Hoje, contamos com a presença da Dra. Hellen Cássia Mazzottini-dos-Santos, coordenadora do Laboratório de Anatomia Vegetal da Universidade Estadual de Montes Claros (Brasil). Sua pesquisa se concentra na morfologia e anatomia dos órgãos reprodutivos das plantas, particularmente os da Bioma cerradoO trabalho desenvolvido por seu grupo de pesquisa gira em torno da associação entre anatomia e fisiologia para melhor compreender os padrões de germinação, a deposição e mobilização de reservas de sementes e o estabelecimento de plântulas em espécies de palmeiras (Arecaceae). Além disso, eles também conduzem estudos sobre os padrões de desenvolvimento de flores, frutos e sementes. Você pode acompanhar suas atividades de pesquisa e atualizações em seu blog. pessoal e laboratório Conta do Instagram.

Dra. Mazzottini-dos-Santos em seu laboratório. Foto de Hellen C. Mazzottini-dos-Santos.

O que fez você se interessar por plantas?

Cresci em um ambiente cercado por plantas, e sua exuberância sempre me chamou a atenção. Assim que iniciei minha graduação em Ciências Biológicas, realizei um estágio de Iniciação Científica no Laboratório de Micropropagação de Plantas, onde desenvolvi interesse pela reprodução vegetal. Minha motivação aumentou ainda mais quando comecei a estudar uma espécie de palmeira com a qual eu já estava familiarizado desde a infância e descobri seu potencial para diversas aplicações. As palmeiras são plantas belíssimas e de grande importância ecológica e econômica. Esses fatores também me motivaram a aprender mais sobre esse grupo específico de plantas. No entanto, foi quando fui apresentado ao mundo invisível da microscopia no Laboratório de Anatomia Vegetal que me tornei verdadeiramente fascinado pelos padrões de organização dos tecidos vegetais, especialmente por meio da histoquímica, que revela os diferentes compostos presentes nas células vegetais. Durante esse período, atuei como monitor em cursos e workshops. Eventualmente, tornei-me professor e coordenador do próprio laboratório onde fui treinado, dando continuidade à minha pesquisa com espécies de palmeiras.

O que o motivou a seguir sua atual área de pesquisa?

Durante a minha graduação, tive o privilégio de trabalhar com os professores Maria Olívia e Leonardo Monteiro, que me orientaram e incentivaram a seguir uma carreira na área da pesquisa. O professor Leonardo apresentou-me a ideia de aplicar o conhecimento anatômico para compreender a fisiologia da germinação em sementes de palmeiras. Posteriormente, durante o mestrado e o doutorado, tive a oportunidade de continuar a desenvolver essa linha de pesquisa. A pós-graduação permitiu-me ser orientada e colaborar com pesquisadores e professores renomados na área de Anatomia Vegetal, que me inspiraram profundamente. Além disso, possibilitou-me explorar e aplicar novas técnicas, como a análise ultraestrutural e a imunocitoquímica, ferramentas essenciais que ajudaram a moldar a minha carreira como pesquisadora em reprodução vegetal e também despertaram a minha paixão pelo ensino.

Qual é a sua parte favorita do seu trabalho relacionada às plantas?

Minha parte favorita do meu trabalho é poder observar e compreender as complexidades que compõem o mistério da vida, que só são reveladas pela microscopia. Empregando diversas microtécnicas, conseguimos identificar padrões de desenvolvimento e estruturas distintas em flores, frutos, sementes e embriões de diferentes espécies de plantas. Com base nesses dados, podemos relacionar suas características a aspectos da biologia reprodutiva adaptados aos diversos ambientes em que essas plantas ocorrem. Além disso, podemos gerar informações que apoiam outras iniciativas em conservação, ecofisiologia, biotecnologia e educação, destacando assim o valor da ciência básica.

Mazzottini-dos-Santos arrecadando um acrocomia aculeata inflorescência. Foto de Hellen C. Mazzottini-dos-Santos.

Há alguma planta ou espécie específica que intrigou ou inspirou sua pesquisa? Se sim, quais são e por quê?

Sou fascinado pelas palmeiras em geral; entre elas, destaco acrocomia aculeata, conhecida no Brasil como macaúba. Iniciei minha carreira como pesquisador estudando essa espécie e nunca me afastei dela. Atualmente, os resultados das pesquisas desenvolvidas pelo grupo do qual faço parte têm atraído significativa atenção, despertando o interesse da indústria nessa espécie para a produção de biocombustíveis. Naquela época, isso era um sonho que parecia muito distante, mas decidimos investir nossa energia nesses estudos, principalmente devido às características da espécie (resistência ao frio, tolerância à seca e alta produtividade). Uma das características que nos motivou a estudar essa espécie é a presença de dormência nas sementes, associada às particularidades de sua anatomia e fisiologia. Embora a dormência seja uma importante característica adaptativa, considerando o ambiente em que a espécie ocorre, ela representa um fator limitante para a produção de mudas em larga escala. Assim, os dados obtidos até o momento têm contribuído para o avanço dessa aplicação na biotecnologia e para o apoio a projetos de conservação e domesticação.

Você poderia compartilhar uma experiência ou anedota de seu trabalho que marcou sua carreira e reafirmou seu fascínio pelas plantas?

Uma experiência incrível foi quando visitei um calçada (áreas de brejo) no norte de Minas Gerais, onde se encontra a majestosa palmeira Mauritia flexuosa (buriti) domina o estrato arbóreo. Esta espécie é uma das plantas mais bonitas que já vi, e fiquei profundamente comovido ao ver aquele vasto buritizal no Cerrado, um bioma bem diferente de seu habitat nativo, a Amazônia. Tal fascínio me fez sentir como se estivesse em uma floresta encantada, e minha primeira reação foi abraçar o estipe daquela planta magnífica. Naturalmente, isso provocou risos nos alunos e colegas que estavam comigo. Meus olhos brilham quando falo sobre palmeiras e o trabalho que fazemos com essas plantas; talvez seja por isso que alguns colegas me apelidaram carinhosamente de "Senhora das Palmeiras".

Mazzottini-dos-Santos em uma área pantanosa dominada por Mauritia flexuosa palmas das mãos. Foto de Hellen C. Mazzottini-dos-Santos.

Que conselho você daria aos jovens cientistas que estão considerando uma carreira em biologia vegetal?

Meu primeiro conselho seria observar as maravilhas da natureza com curiosidade, pois você certamente encontrará muitas plantas intimamente associadas a elas. Busque algo que o cative e, uma vez que descubra esse fascínio, alimente-o continuamente. As plantas são organismos magníficos e essenciais para a sustentação da vida na Terra. O que falta à maioria das pessoas é a consciência disso. Meu segundo conselho é estudar com afinco, se esforçar para aprender novas técnicas, construir bons relacionamentos e permanecer persistente na área em que escolher se especializar. Você, sem dúvida, enfrentará muitos desafios, mas encontrar soluções trará grandes recompensas e felicidade! E, por fim, meu terceiro conselho: compartilhe suas descobertas e as leve a crianças, jovens e adultos. O que você faz merece ser valorizado e compreendido. Somente o conhecimento pode transformar a educação e promover o respeito ao meio ambiente.

O que as pessoas geralmente erram sobre as plantas?

Percebi que as pessoas sabem muito pouco sobre plantas e tendem a vê-las meramente como elementos decorativos ou matérias-primas para a produção de bens. Há uma clara incapacidade de reconhecer que as plantas são organismos vivos incríveis, com diversas formas, cores, aromas e adaptações a ambientes muito diferentes, que sustentam a vida na Terra. Quando questionadas sobre plantas, as pessoas frequentemente respondem com reclamações sobre seus nomes difíceis e a falta de interação com humanos, diferentemente do que vivenciamos com animais. Essa desconexão se torna ainda mais evidente quando nos aprofundamos na morfologia e anatomia das plantas; muitas vezes, parece que estamos falando uma língua de outro planeta. Como pesquisadores, nossos esforços devem ser ainda maiores na tentativa de mudar essa percepção distorcida da botânica. Gerar e compartilhar conhecimento sobre a importância das plantas é urgente neste momento de crise climática global, pois as plantas são essenciais para manter o equilíbrio da natureza.

Grupo de pesquisa Mazzottini-dos-Santos durante trabalho de campo no norte de Minas Gerais, Brasil. Foto de Hellen C. Mazzottini-dos-Santos.

Carlos A. Ordóñez-Parra

Carlos (ele/dele) é um ecologista de sementes colombiano atualmente fazendo seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, Brasil) e trabalhando como editor científico na Botany One e como oficial de comunicações na International Society for Seed Science. Você pode segui-lo no BlueSky em @caordonezparra.