Desde os tempos antigos, as pessoas recorrem às plantas para aliviar problemas de saúde do dia a dia, desde distúrbios digestivos e dores de cabeça até alergias e ansiedade. Remédios à base de ervas podem evocar imagens de jardins de avó ou farmácias empoeiradas, mas a medicina à base de plantas está longe de ser uma relíquia do passado. Hoje, ela sustenta a assistência médica de milhões de pessoas em todo o mundo e impulsiona uma indústria global avaliada em centenas de bilhões de dólares, apoiando colhedores, agricultores e comerciantes ao longo de longas cadeias de suprimentos. Bancos de dados como Serviço de Nomes de Plantas Medicinais de Kew Agora, a lista inclui quase 42,000 espécies de plantas utilizadas para fins medicinais, revelando a imensidão que essa farmácia botânica alcançou.

No entanto, esse comércio em expansão também acarreta riscos ocultos para as próprias plantas. Muitas espécies medicinais são colhidas diretamente da natureza e, se forem coletadas mais rapidamente do que conseguem se regenerar, as populações podem diminuir silenciosamente ou até mesmo desaparecer. Ao mesmo tempo, outras pressões — incluindo a degradação dos ecossistemas, as mudanças climáticas e as espécies invasoras — estão remodelando os ecossistemas onde essas plantas crescem. O resultado é uma crescente preocupação entre os cientistas: as próprias plantas das quais dependemos para a cura podem estar ameaçadas.

Avaliar o quão ameaçadas essas plantas realmente estão, no entanto, está longe de ser fácil. Os cientistas estimam que existam centenas de milhares de espécies de plantas, mas apenas uma pequena fração foi formalmente avaliada quanto ao seu risco de extinção. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)A Organização Mundial da Saúde Animal (OMS), organização responsável pela Lista Vermelha global de espécies ameaçadas, afirma que análises globais anteriores sugerem que apenas cerca de um quinto das plantas medicinais documentadas foram avaliadas, e uma parcela considerável delas já é considerada em risco. Essa falta de informação deixa comerciantes, fitoterapeutas e consumidores com pouca orientação sobre se as plantas das quais dependem estão sendo colhidas de forma sustentável.

Um estudo recente de Isabella Flowers e colegas examinou o estado de conservação de 298 espécies de plantas vendidas online a fitoterapeutas do Reino Unido.Os pesquisadores analisaram três grandes sites de fornecedores e compilaram uma lista completa de todas as espécies vendidas, desde raízes secas até extratos líquidos. Após obterem uma lista verificada, compararam cada espécie com a Lista Vermelha da IUCN para determinar se ela havia sido avaliada e quais ameaças enfrentava. Eles também verificaram a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), que regula o comércio global de animais selvagens ameaçados de extinção, para verificar quais plantas são legalmente protegidas nos mercados internacionais.

O primeiro resultado surpreendente é o quão pouco realmente sabemos. Das 298 espécies identificadas em produtos fitoterápicos do Reino Unido, 203 nunca foram avaliadas quanto ao risco de extinção, portanto, simplesmente não sabemos se estão seguras ou caminhando para a extinção. Entre as 95 que foram avaliadas, a maioria é classificada como Pouco Preocupante, o que significa que atualmente não são consideradas de alto risco. No entanto, 13 espécies se enquadram em categorias que variam de Quase Ameaçada a Criticamente em Perigo, incluindo nomes bem conhecidos como... Ginkgo biloba (Em perigo de extinção) bdélio indiano (Commiphora wightii, Criticamente em Perigo) e goldenseal (Hydrastis canadensis, Vulnerável).

Analisando mais de perto, o panorama se torna menos animador. Todas as espécies nas categorias ameaçadas apresentaram populações em declínio ou tendências desconhecidas. Mesmo algumas plantas classificadas como de menor preocupação mostram sinais de declínio regional. Em termos de conservação, isso é um sinal de alerta: as espécies comuns de hoje podem se tornar a preocupação de amanhã.

Ao analisar as causas, a equipe descobriu que a coleta deliberada em áreas selvagens era a ameaça específica mais frequente. Mas não era a única. Agricultura, espécies invasoras, doenças e mudanças climáticas também figuram com destaque.

O comércio global adiciona mais uma camada de complexidade. Enquanto algumas espécies, como o dente-de-leão (Taraxacum officinale) E do urtiga-morta-branca (Álbum Lamium), são comuns na Grã-Bretanha, outros, como o Garra do diabo (Harpagophytum procumbens) E do árvore de trombeta rosa (Handroanthus impetiginosus), dependem inteiramente de cadeias de abastecimento internacionais. No entanto, apenas sete espécies no estudo são regulamentadas pela CITES, e apenas três delas coincidem com espécies formalmente avaliadas como ameaçadas.

Em conjunto, as conclusões sugerem que o mercado de ervas atual é marcado pela incerteza e pode estar utilizando uma gama muito maior de plantas potencialmente ameaçadas do que a maioria dos consumidores imagina. Para profissionais e fornecedores, isso significa que a sustentabilidade não pode ser dada como certa. Avaliações mais precisas, maior transparência nas cadeias de suprimentos e uma utilização mais ampla de sistemas de certificação podem ajudar a garantir que as plantas medicinais não se tornem vítimas da crise da biodiversidade. À medida que a demanda por remédios naturais cresce, o desafio não é apenas reconhecer o valor dessas plantas, mas também garantir que elas permaneçam disponíveis para as gerações futuras.

LEIA O ARTIGO:

Flores ILovett JCHassall C2026. Estado de conservação das espécies utilizadas na indústria de fitoterapia do Reino Unido. Plantas, pessoas, planetahttps://doi.org/10.1002/ppp3.70154


Tradução para espanhol e português de Erika Alejandra Chaves-Diaz.

Foto da capa por Pexels (Pixabay).