Nas florestas do extremo norte do México e do extremo sul da Argentina, as abelhas das orquídeas voam. Esses insetos desempenham um papel importante na polinização nos trópicos. Os machos das abelhas das orquídeas são conhecidos por seus comportamentos elaborados de coleta de perfume, enquanto as fêmeas são consideradas generalistas quando se trata de coletar pólen para alimentar seus filhotes. No entanto, um novo estudo realizado por Samuel Boff e colegas, publicado no Jornal de Conservação de Insetos sugere que as dietas de pólen dessas abelhas podem não ser tão diversas quanto se pensava, com o desmatamento levando a uma redução dos recursos florais disponíveis.

O estudo, realizado por pesquisadores do Brasil, Alemanha e México, analisou pólen de resíduos excretados em ninhos da abelha das orquídeas Euglossa cordata em diferentes tipos de vegetação e níveis de cobertura florestal no Brasil. O estudo examinou como as abelhas se alimentam na Mata Atlântica, nos campos do Cerrado e na zona onde os dois ecossistemas se encontram. Os ecologistas descobriram que a composição da dieta do pólen diferia significativamente entre os tipos de vegetação, sendo a especialização da dieta mais baixa nas áreas florestais e mais alta nos habitats perturbados.

Euglossa cordata fêmea forrageando na flor de Dichorisandra tirsiflora, Itu (Brasil). Foto: Samuel Boff.

A equipe encontrou uma forte correlação entre a riqueza de pólen, o número de células de cria e a quantidade de cobertura florestal. Uma pesquisa em outros resultados publicados revelou que esse padrão era consistente em vários Euglossa espécies, sugerindo que os efeitos da perda de habitat na diversidade de pólen são generalizados entre as abelhas orquídeas. Um estudo mais detalhado do pólen mostra que as abelhas usavam várias plantas que gostavam de procurar acima do nível do solo. Boff e colegas escrevem:

Embora Euglossa colete recursos em ervas e arbustos, a maioria dos gêneros de plantas apresenta hábito de elementos florestais (por exemplo, árvores, epífitas e cipós). Nossas descobertas podem ajudar a explicar o uso de fragmentos florestais conectados pelas abelhas para permitir-lhes habitar locais florestais (Dick et al. 2004) e seus menores tamanhos populacionais em áreas abertas (Silveira et al. 2015) e áreas urbanizadas (Cândido et al. 2018).

boff et al. 2024

As descobertas sugerem que mesmo espécies generalistas como Euglossa cordata, que estão adaptados para forragear uma grande variedade de plantas, ainda dependem fortemente dos ricos recursos florais encontrados nas florestas. A perda destes habitats, particularmente das árvores e lianas que fornecem fontes essenciais de pólen, poderia ter efeitos em cascata nas populações de abelhas das orquídeas e, por sua vez, nas numerosas espécies de plantas que elas polinizam.

LEIA O ARTIGO

Boff, S., da Luz, CFP, Raizer, J., Pinto, GS, Santos, LF, Freitas, BM, da Silva, CI, Quezada-Euàn, JJG, Soro, A. e Alves-dos-Santos, I (2024) “O desmatamento reduz a diversidade da dieta polínica das abelhas generalistas das orquídeas," Jornal de Conservação de Insetos. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10841-024-00575-2.