Tradicionalmente, as briófitas são vistas como viajantes do vento, dispersando seus esporos principalmente pelo ar. No entanto, nem todas as suas jornadas ocorrem nos céus. Muitas espécies também se deslocam pela paisagem com a ajuda de animais, um processo conhecido como... zoocoriaE as espécies envolvidas podem ser mais diversas do que se imaginava. Um estudo recente investigou se as minhocas poderiam atuar como agentes dispersores de briófitas que habitam o solo em ambientes tropicais, revelando resultados surpreendentes.

O estudo focou em três briófitas terrícolas comuns no sudeste do Brasil: a hepática Fossombronia porfirorhiza e os musgos Criso-hipno diminuto e Hyophila involutaPara testar sua hipótese, Teixeira e seus colegas utilizaram a minhoca de compostagem. eisenia andreiApós um período de jejum e lavagem para remover quaisquer resíduos do trato digestivo, as minhocas foram submetidas a dois tratamentos. No tratamento com “tapete de briófitas”, porções intactas de 16 cm² de cada espécie foram colocadas sobre o solo, enquanto no tratamento com “briófitas maceradas”, porções equivalentes foram fragmentadas utilizando uma peneira de 0.5 mm para simular processos naturais de fragmentação. Controles adicionais, consistindo apenas de solo, apenas de vermiculita e de minhocas sem contato com briófitas, permitiram aos pesquisadores descartar a possibilidade de contaminação externa por propágulos.

As minhocas permaneceram em cada tratamento por sete dias. Seus excrementos foram então coletados, transferidos para solo fresco e monitorados em câmara de crescimento por quatro meses. Durante esse período, os pesquisadores registraram a emergência e a área ocupada pelos briófitos regenerados.

Hyophila involuta, uma das espécies utilizadas no experimento. Foto por chenshu (iNaturalista).

Quase metade das unidades inoculadas com húmus (47%) apresentou crescimento de briófitas, enquanto nenhum dos controles exibiu regeneração, confirmando que propágulos viáveis ​​sobreviveram à passagem pelo trato digestivo das minhocas. O sucesso da dispersão variou consideravelmente entre os tratamentos e as espécies. O material macerado foi claramente mais eficaz do que os tapetes intactos, com uma taxa de estabelecimento de 67% em comparação com 28% no tratamento com tapetes, além de maior cobertura por unidade de área. Entre as espécies, Hyophila involuta Destacou-se, estabelecendo-se em 67% das unidades e alcançando a maior cobertura, especialmente quando ingerido de forma fragmentada. Fossombronia porfirorhiza apresentou sucesso intermediário (50%), enquanto Criso-hipno diminuto foi o menos bem-sucedido (25%).

Essas diferenças podem ser explicadas por características biológicas contrastantes. Hyophila involuta produz abundantes gêmulas, pequenos brotos de tecido, no filidum e possui alta capacidade de regeneração vegetativa, como evidenciado pela intensa formação de gemas nas peças fundidas. Fossombronia porfirorhizaPor sua vez, possui esporos relativamente grandes e de paredes espessas, mais tolerantes à dessecação, o que favorece sua persistência no solo. Em contrapartida, Criso-hipno diminuto Produz esporos pequenos com curta viabilidade, o que pode limitar seu estabelecimento após a dispersão.

Fossombronia porfirorhiza, uma das espécies utilizadas no experimento. Foto por joel_alejandro (iNaturalista).

Os resultados sugerem que as minhocas podem desempenhar um papel relevante nas comunidades de briófitas através da redistribuição de diásporos presentes na fina camada de solo associada a tapetes de briófitas. Ao escavar e se alimentar, esses invertebrados misturam esporos e propágulos assexuados em novos microambientes, potencialmente facilitando a colonização após perturbações e mantendo a conectividade entre os fragmentos de vegetação.

Ao demonstrar que as minhocas são capazes de ingerir, transportar e excretar propágulos viáveis ​​de briófitas em condições controladas, o estudo revela uma faceta pouco explorada das interações entre briófitas e animais e aponta para um papel potencialmente importante, e até então subestimado, dos invertebrados do solo na distribuição de briófitas tropicais.

LEIA O ARTIGO:

Teixeira OAOliveira MFMaciel-Silva AS. 2025. Dispersão de briófitas mediada por minhocas: um estudo experimental. Revista de Briologia: 1-10. https://doi.org/10.1080/03736687.2025.2597682


Tradução para o português de Pablo O. Santos

Foto da capa: Orvalina A. Teixeira