Quando pensamos em fontes de novos medicamentos contra o câncer, dificilmente imaginaríamos os musgos que sobrevivem às condições extremas da Antártida. No entanto, um novo estudo sugere que uma dessas pequenas plantas pode conter compostos capazes de interferir em processos fundamentais no desenvolvimento de tumores.
Pesquisadores investigaram o potencial anticancerígeno de extratos de Politrichastrum alpinum, um musgo amplamente distribuído em regiões frias do planeta, usando células tumorais mamárias caninas como modelo. O interesse farmacológico em briófitas cresceu nos últimos anos, visto que este grupo de plantas produz uma grande diversidade de metabolitos secundários que permanecem pouco exploradas.

Os testes revelaram que o extrato reduziu significativamente a viabilidade das células tumorais, bem como sua capacidade de formar colônias, migrar e invadir novos locais. Em outras palavras, além de limitar o crescimento do tumor, o tratamento também afetou características associadas à progressão e disseminação do câncer.
Os pesquisadores também observaram que o extrato alterou o ciclo celular e induziu apoptose, um processo de morte celular programada considerado um dos principais mecanismos para a eliminação de células cancerígenas. Essa resposta foi confirmada por diferentes abordagens experimentais, que demonstraram a ativação de caspase-3 e sua forma clivada, marcadores clássicos da via apoptótica.
Um aspecto particularmente promissor do estudo foi a comparação entre células tumorais e células epiteliais caninas não tumorais. Embora o extrato também tenha sido testado em células saudáveis, estas se mostraram menos sensíveis ao tratamento, sugerindo um certo grau de seletividade em relação às células cancerígenas. Essa característica é especialmente relevante na busca por novos compostos antitumorais, visto que muitos tratamentos convencionais afetam células saudáveis e tumorais indiscriminadamente.

Além do seu efeito antiproliferativo, o extrato reduziu significativamente a capacidade das células tumorais de migrar e invadir novos ambientes, duas características fundamentais do processo de metástase. Nos experimentos realizados, as células tratadas apresentaram menor capacidade de atravessar barreiras experimentais, sugerindo que os compostos presentes no extrato podem interferir em etapas importantes da disseminação do câncer para outros tecidos.
Essas descobertas em glândulas mamárias caninas são particularmente relevantes para a saúde dos cães, pois os tumores mamários estão entre os mais frequentes em cadelas e continuam sendo um importante desafio terapêutico. Ao mesmo tempo, o estudo reforça o potencial de ambientes extremos como fontes de novas moléculas bioativas. organismos antárticos estão constantemente expostos a frio intenso, alta radiação e outros estresses ambientais, condições que favorecem a evolução de estratégias químicas únicas.
Embora os resultados se restrinjam a experimentos realizados em cultura de células, eles fornecem evidências promissoras de que Politrichastrum alpinum podem conter compostos com atividade antitumoral. O trabalho reforça uma ideia cada vez mais presente na pesquisa de produtos naturais: algumas das respostas para desafios médicos complexos podem estar escondidas nos organismos mais improváveis.
LEIA O ARTIGO:
Kim M, Lee H, Yang M, <em>et al.</em>. 2026. O extrato metanólico de Polytrichastrum alpinum induz a parada do ciclo celular e a apoptose em células tumorais mamárias de cadelas de companhia. Genes e Genômica. https://doi.org/10.1007/s13258-026-01780-w
Tradução para o português de Pablo O. Santos.
Foto da capa por michael-lueth (iNaturalist, CC BY-NC 4.0).