Quando um novo bairro é construído, normalmente vemos tratores destruindo a vegetação nativa, enquanto cascalho e concreto tomam conta do terreno, para no final serem plantados extensos gramados com pouquíssimas flores.
No entanto, para muitos grupos de insetos que antes habitavam a região, como abelhas, borboletas e besouros, essa abordagem convencional de paisagismo equivale basicamente a transformar uma floresta em um vasto deserto de concreto, completamente desprovido de recursos. Imagine se pudéssemos projetar novos bairros, combinando arquitetura e paisagismo, com um foco genuíno nos polinizadores?
Pesquisadores da Flórida, nos Estados Unidos, decidiram colocar esse conceito à prova. Em um estudo publicado em Urban EcosystemsOs autores compararam dois bairros recém-criados, construídos lado a lado e ao mesmo tempo.Um dos jardins seguia um design convencional, com gramados tradicionais cobrindo a maior parte do espaço, além de plantas ornamentais não nativas. O outro jardim não tinha grama alguma, sendo coberto com palha de pinheiro e dominado por plantas nativas da região.

À primeira vista, ambos os bairros ofereciam uma abundância semelhante de flores desabrochando ao longo do ano. Seria fácil supor que, com uma quantidade similar de flores disponíveis, o número de insetos visitantes seria comparável. É aí que reside a surpresa! O estudo revelou que o bairro com paisagismo nativo atraiu de duas a três vezes mais polinizadores e apresentou uma riqueza de espécies de insetos quase quatro vezes maior.
Portanto, não se tratava de quantidade de flores, mas sim de qualidade. As plantas nativas atraíam abelhas, vespas e borboletas de forma irresistível, que simplesmente ignoravam os canteiros de flores convencionais.
Para demonstrar que as abelhas locais estavam ativamente buscando plantas nativas em bairros convencionais, os pesquisadores realizaram um experimento. Eles colocaram pequenos vasos com plantas nativas floridas nos jardins do bairro convencional. Em apenas dois ou três dias, o efeito foi evidente: espécies raras de abelhas, nunca antes registradas naquele bairro, apareceram para visitar os vasos de flores. Isso confirmou que os polinizadores estavam forrageando nas proximidades; eles simplesmente não encontraram nada atraente nos jardins convencionais.

Além de beneficiar os moradores dessas pequenas cidades, substituir gramados por flora nativa oferece outra grande vantagem: a conservação da água. Nos Estados Unidos e em muitas partes do mundo, a grande maioria da água potável residencial é usada para irrigar gramados que oferecem um valor ecológico insignificante.
O estudo demonstrou que é possível construir bairros modernos e atraentes que sirvam como verdadeiros santuários para insetos polinizadores e, como bônus, utilizem menos água.
LEIA O ARTIGO:
Hagaman, M., Bohlen, PJ, McNamara, J., Pandolfi, A., Jenkins, DG, Cope, V., & Iannone III, BV (2026). Construindo melhores lares para polinizadores usando paisagens baseadas em espécies nativas em novos empreendimentos suburbanos. Urban Ecosystems, 29(4), 197. https://doi.org/10.1007/s11252-026-02056-7
Tradução para o português de Andressa Luna.
Foto de capa por StockSnap de P.