Se você parar e pedir a alguém para nomear cinco animais, as respostas virão rapidamente. Mas peça cinco plantas, e a pausa costuma ser mais longa. Talvez a resposta seja rosa, carvalho ou girassol. Esse ponto cego tem um nome: disparidade de percepção das plantas ou cegueira vegetal, o que significa que as pessoas frequentemente deixam de notar as plantas ao seu redor, de entender o que as torna únicas ou de apreciar a importância das plantas para a vida. Reconhecendo esse desafio, um artigo recente na Annals of Botany mostra que o uso de referências audiovisuais e artísticas em aulas de botânica aumenta o envolvimento, a motivação e o desempenho dos alunos, ao mesmo tempo que os ajuda a observar e apreciar mais as plantas.
A pesquisa liderada por Gláucia Silva pensou em por que as pessoas demonstram tão pouco interesse em plantas, especialmente em comparação com os animais. Uma explicação está na sala de aula. A botânica é frequentemente ensinada com aulas tradicionais, com muita memorização e pouca criatividade. Muitos professores têm pouca formação formal em botânica, e o ciclo continua: o baixo engajamento dos professores leva ao baixo engajamento dos alunos. O resultado é uma população que não vê as plantas como centrais na vida cotidiana.
As consequências dessa cegueira vegetal vão muito além da educação. A falta de conhecimento sobre plantas enfraquece a relação entre as pessoas e as plantas, levando à falta de percepção dos alimentos de origem vegetal, à desconexão entre plantas e mudanças climáticas, à perda de biodiversidade e ao pouco reconhecimento do papel da vegetação na prevenção da desertificação, na melhoria dos solos e na purificação da água.
Então, como quebramos esse ciclo? Os autores acreditam que parte da resposta está na arte e na cultura pop. Usando videoclipes e artes visuais como ponto de partida, eles experimentaram maneiras de tornar a botânica não apenas acessível, mas também atraente e até divertida.
A abordagem baseia-se na ideia de "organizadores avançados". São ferramentas que os professores usam para conectar o que os alunos já sabem com o que estão prestes a aprender. Esses organizadores ajudam a tornar o novo conhecimento menos abstrato e mais fácil de absorver. Neste caso, os professores usaram videoclipes de Taylor Swift, letras de músicas e capas de álbuns com plantas no início de cada aula para introduzir novas lições sobre diferentes tópicos botânicos, incluindo Briófitas e Pteridófitas, Gimnospermas, Angiospermas e a própria disparidade de conhecimento sobre plantas.
Os resultados foram surpreendentes. Os alunos ensinados com esse novo método melhoraram sua participação e motivação. Além disso, começaram a usar termos botânicos espontaneamente. As reclamações sobre botânica teórica diminuíram. O desempenho acadêmico melhorou, assim como o trabalho em equipe em projetos em grupo. Os professores também relataram que seus relacionamentos com os alunos melhoraram: a sala de aula parecia mais uma exploração colaborativa do que uma aula unilateral. Talvez o mais importante seja o aprofundamento da conexão emocional entre os alunos e as plantas.
Os autores consideram este método de ensino promissor e pode ser aplicado a materiais de outros artistas, bandas, filmes, séries e documentários. Qualquer mídia que inclua elementos botânicos pode abrir oportunidades para a observação científica por meio da arte e da cultura pop, trazendo as plantas para o nosso cotidiano. Fazer isso requer criatividade, empatia e disposição para encontrar os alunos onde eles já estão.
LEIA O ARTIGO
Silva G., Versieux L., Mezzonato A. Mattos Al. (2025) “Dançando com plantas: os videoclipes de Taylor Swift como organizadores prévios para uma aprendizagem significativa em Botânica” Annals of Botany. Disponível em: https://doi.org/10.1093/aob/mcaf183
