As plantas são incrivelmente diversas, e os botânicos também! Em sua missão de espalhar histórias fascinantes sobre o mundo das plantas, a Botany One também apresenta os cientistas por trás dessas grandes histórias.

Hoje, temos Bianca Schindler, doutoranda da Universidade de Brasília (Brasil). Schindler tem se dedicado intensamente aos estudos de plantas silvestres, sua taxonomia e conservação. Trabalhando na identificação botânica de inventários florestais e levantamentos florísticos dos principais biomas brasileiros, ela possui conhecimento aprofundado sobre a taxonomia, distribuição e ecologia de espécies vegetais, além de vasta experiência em campo por ter participado de expedições em diferentes biomas do Brasil. Sua tese gira em torno de espécies do gênero *Bianca*. Vellozia Vand. (Velloziaceae) que ocorre na região Central do Brasil, popularmente conhecida como 'canelas-de-ema'. Você pode segui-la em ResearchGate e Instagram.

Um exemplar florido de Vellozia squamata. Foto de Bianca Schindler.

O que fez você se interessar por plantas?

Sem dúvida, meu interesse por plantas vem da influência da minha mãe. Cresci na zona rural de uma pequena cidade, onde o contato diário com as plantas fazia parte da vida, seja brincando, cultivando, colhendo ervas e frutos ou, melhor ainda, provando-os diretamente da planta.

Assim, as plantas sempre foram uma parte muito natural da minha vida. No entanto, minha curiosidade em relação a elas, além do seu uso prático, devo à minha mãe, que a cada ano continua a me surpreender com algo novo em seu jardim e em sua horta incrivelmente produtiva, mesmo em um espaço pequeno. Como ela costuma dizer:Cada semente é mágica porque carrega uma vida.. "

Desde cedo, meu fascínio pelas plantas nasceu da observação do entusiasmo da minha mãe por esse universo, o que naturalmente guiou minhas escolhas profissionais. Hoje, não consigo me imaginar trabalhando em qualquer área que não esteja relacionada a elas: Plantas! Esses seres incríveis, belos e complexos que continuam a revelar mistérios e a oferecer oportunidades de pesquisa fascinantes.

A mãe de Schindler em seu jardim. Foto de Bianca Schindler.

O que o motivou a seguir sua atual área de pesquisa?

 Minha jornada no mundo das plantas sempre foi bastante ampla. Ao longo da minha formação acadêmica e experiência profissional, trabalhei de forma generalista, coletando e analisando espécimes de diferentes famílias. Como sempre digo, o Brasil é um verdadeiro paraíso para botânicos. Temos o privilégio de abrigar uma enorme diversidade de ambientes, resultando em uma impressionante riqueza de plantas incríveis, muitas vezes endêmicas.

Para um botânico, todas as plantas são fascinantes, e cada grupo tem suas peculiaridades. Por isso, escolher uma família ou gênero para minha pesquisa de doutorado não foi uma tarefa fácil; sempre há muito o que estudar em qualquer grupo de plantas.

No entanto, minha decisão de trabalhar com Vellozia Tudo começou em 2018, quando me mudei para o coração do Brasil e tive meu primeiro contato direto com o Cerrado. Até então, eu nunca havia vivenciado pessoalmente esse bioma, nem visto esse grupo emblemático de plantas em seu habitat natural: o Vellozia, conhecida localmente como canelas-de-ema, um gênero quase inteiramente endêmico dos afloramentos rochosos do país.

A experiência de campo, aliada à escassez de literatura sobre essas plantas na região, reforçou minha decisão de trabalhar com esse gênero. Assim, a pesquisa em andamento visa compreender e revelar a diversidade presente nessa área, bem como propor e atualizar medidas de conservação para essas plantas fascinantes e resilientes, que ocorrem em formações rochosas e merecem atenção especial em vista das mudanças climáticas e das altas taxas de desmatamento no Cerrado ano após ano.

 Acredito que o estudo das plantas oferece uma gama infinita de trabalhos fascinantes e oportunidades para novas descobertas. O que mais me agrada, na verdade, é todo o processo, desde o trabalho de campo até a análise do material em laboratório. A botânica nos dá a chance de explorar novos lugares, coletar plantas em diferentes ambientes e interagir com pessoas e culturas diversas, experiências profundamente enriquecedoras. Sou muito grata por todas as oportunidades de trabalho de campo que tive ao longo da minha trajetória.

Do meu ponto de vista, o trabalho de campo é fundamental para abrir caminhos de compreensão em muitas etapas do trabalho de um taxonomista. É no campo que começamos a reunir as primeiras "peças", que mais tarde nos ajudam a caracterizar e a entender melhor o que será analisado no laboratório. Por essa razão, cada nova expedição representa inúmeras possibilidades e é sempre uma experiência especial para mim.

Além disso, há a análise de espécimes em coleções científicas, os herbários. Nessa etapa, enquanto tentamos compreender a entidade que coletamos, comparando-a com outros materiais, também temos a oportunidade de vivenciar a história: esses espécimes carregam registros dos lugares e das pessoas que os coletaram ao longo de muitas décadas. Poder trabalhar com esse patrimônio científico e histórico é realmente incrível.

Schindler prensando plantas no campo. Foto de Bianca Schindler.

Há alguma planta ou espécie específica que intrigou ou inspirou sua pesquisa? Se sim, quais são e por quê?

 Como mencionado anteriormente, é realmente difícil escolher apenas uma planta ou uma única situação quando há tanto para descobrir sobre elas. Dito isso, minha pesquisa atual com Vellozia Tem sido especialmente intrigante (muitas vezes a ponto de me manter acordado à noite tentando entendê-los - risos).

Como taxonomistas, tentamos encaixar essa enorme diversidade em um grande quebra-cabeça, no qual cada espécie representa uma peça. Para isso, reunimos informações morfológicas, ecológicas, genéticas, químicas e geológicas, entre outras, em um esforço para dar sentido a esse conjunto complexo. Nesse sentido, Vellozia As espécies são particularmente fascinantes porque exibem alta complexidade e adaptações notáveis ​​a ambientes extremos: sobrevivem sob intensa radiação solar, em condições pobres em nutrientes devido ao crescimento quase exclusivo em rochas, e também enfrentam forte sazonalidade em algumas regiões.

Essas adaptações resultam em um rico arsenal de estratégias ecológicas, que muitas vezes se refletem em morfologias complexas e altamente variáveis, nem sempre fáceis de classificar. Isso torna a pesquisa fascinante e, às vezes, um pouco "desconcertante", pois, enquanto buscamos definir limites claros entre as espécies, as plantas continuam a seguir seus próprios caminhos evolutivos para sobreviver e se adaptar a uma ampla gama de condições.

Assim, o que realmente me inspira e intriga não é uma única espécie, mas todas essas peças do quebra-cabeça juntas. Estou animado para ver o que poderei contribuir ao final desta jornada de aprendizado e compartilhar esses avanços com outras pessoas.

Campo de Vellozia no Parque Nacional Chapada dos Veadeiros (Brasil Central). Foto de Bianca Schindler

Você poderia compartilhar uma experiência ou anedota de seu trabalho que marcou sua carreira e reafirmou seu fascínio pelas plantas?

 Todos os dias, sinto-me grata pela oportunidade de escolher trabalhar com plantas! Uma experiência que sempre me marca é ver o impacto que o nosso trabalho pode ter nas pessoas. Por exemplo, houve momentos em que alunos, ou mesmo pessoas de fora da área, se inspiraram durante uma palestra ou uma expedição de campo e começaram a ver as plantas de uma forma completamente nova, percebendo a complexidade e a beleza que muitas vezes passam despercebidas. Momentos como esses reafirmam a minha trajetória e me lembram de tudo o que já aprendi.

Outros momentos inesquecíveis acontecem durante as coletas de campo, quando me deparo com uma espécie rara que nunca vi em seu habitat natural ou que venho tentando documentar por meio de flores ou frutos há muito tempo, e finalmente consigo. É nesses momentos, entre o esforço físico, a observação cuidadosa e a descoberta, que meu fascínio pelas plantas se renova.

Que conselho você daria aos jovens cientistas que estão considerando uma carreira em biologia vegetal?

 Meu principal conselho é encontrar um tema que realmente te motive. Para isso, aproveite as oportunidades que surgirem durante seus estudos ou curso, converse com pessoas mais experientes na área e não tenha medo ou vergonha de fazer perguntas, começar algo novo ou até mesmo abandonar um tema ou estágio. Muitas vezes, é assim que seus verdadeiros interesses se revelam.

Pesquisar é fascinante, mas o caminho nem sempre é fácil. Por isso, é essencial escolher algo que você realmente ame e que te motive de verdade, para que mesmo nos dias mais nublados, você ainda consiga enxergar o sol à frente e lembrar que todo o esforço valerá a pena.

Bianca e sua equipe durante expedição no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Brasil Central). Foto de Bianca Schindler.

O que as pessoas geralmente erram sobre as plantas?

 Frequentemente, a diversidade de espécies vegetais é subestimada, e as plantas são vistas meramente como um "fundo verde" uniforme e passivo da paisagem. Essa falta de consciência nos impede de reconhecer a complexa rede de interações que existe até mesmo dentro de uma única espécie vegetal. Como resultado, negligenciamos muitos dos papéis fundamentais que as plantas desempenham no planeta, incluindo serviços ecossistêmicos como armazenamento de carbono, regulação climática, proteção do solo e muitos outros que ainda estão sendo descobertos.

Por essa razão, as plantas são frequentemente subestimadas nas estratégias de conservação, apesar de serem essenciais para a resiliência dos ecossistemas dos quais todos fazemos parte. Devo admitir que me entristece um pouco ver esse julgamento equivocado refletido na linguagem cotidiana — quando alguém descreve outra pessoa como “chata” dizendo que ela é “como uma planta”. Ora, coitadas das plantas! Elas são organismos incríveis e complexos, repletos de estratégias surpreendentes, e ainda temos tanto a aprender com elas.