A Antártica é frequentemente considerada um dos ambientes mais preservados e intocados da Terra. No entanto, um,novo estudo sugere que, mesmo nesse continente remoto, algumas espécies de plantas já podem estar enfrentando riscos significativos de extinção. Pela primeira vez, uma planta nativa da Antártica foi avaliada de acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), e o resultado traz um importante alerta: o musgo Roaldia revoluta foi classificado como Em Perigo de Extinção.

A avaliação representa um marco para a conservação da flora antártica. Embora as briófitas constituam grande parte da vegetação terrestre do continente, ainda se sabe surpreendentemente pouco sobre o estado de conservação dessas plantas. Até o momento, nenhuma espécie vegetal da Antártica havia sido formalmente avaliada utilizando os critérios globais da IUCN.

A <em>Roaldia revoluta</em> formando um tapete. Foto de Mike Ryan (iNaturalist, CC BY-NC 4.0).

Para realizar a avaliação, os pesquisadores reuniram todos os registros conhecidos de Roaldia revoluta na Antártica, combinando dados de herbários, literatura científica e levantamentos de campo. Após compilar 173 registros distribuídos pelo continente e aplicar métodos padronizados adaptados às particularidades das briófitas, os autores estimaram que todas as colônias conhecidas na Antártica representam, em conjunto, apenas cerca de 80 indivíduos maduros. Com base nesses dados, a espécie atende aos critérios da IUCN para a categoria Em Perigo de Extinção (Endangered).

Embora sua ocorrência se estenda por uma ampla região geográfica, as populações são fortemente fragmentadas. Um aspecto particularmente preocupante é que a espécie parece se reproduzir exclusivamente de forma assexuada na Antártica. Os pesquisadores não encontraram esporófitos em nenhum dos espécimes examinados, sugerindo que as populações dependem da propagação vegetativa para sua manutenção. Essa limitação pode reduzir a capacidade de dispersão da espécie e dificultar a recolonização de áreas onde as populações tenham sido perdidas.

<em>Roaldia revoluta</em> na Antártica. As grades pretas indicam aquelas utilizadas para definir a área de ocupação da espécie, enquanto as células azuis da grade foram usadas para distinguir diferentes indivíduos. Figura adaptada de Amorim <em>et al.</em> (2026) (CC BY 4.0).

As principais ameaças identificadas estão relacionadas às mudanças climáticas, ao aumento da presença humana e às espécies invasoras. A Antártica está entre as regiões que mais aquecem no planeta, e alterações na temperatura, na disponibilidade de água e na disseminação de espécies não nativas podem modificar profundamente os habitats ocupados por Roaldia revoluta. Ao mesmo tempo, muitas populações ocorrem em áreas sujeitas à intensa atividade científica e turística, especialmente na Ilha Rei George, onde estações de pesquisa, pistas de pouso e visitas frequentes aumentam o risco de perturbações locais.

Outra preocupação é que a espécie não foi registrada em nenhuma Área Antártica Especialmente Protegida, revelando uma importante lacuna nas atuais estratégias de conservação do continente.

a) Um tapete de musgos composto por várias espécies, incluindo <em>Roaldia revoluta</em>, apresentando contaminação por fungos. (b) Um tapete de musgo saudável. Figura modificada de Amorim <em>et al.</em> (2026) (CC BY 4.0).

Além das implicações para a conservação, o estudo também oferece uma contribuição metodológica relevante. Estimar o número de indivíduos em briófitas é notoriamente difícil, uma vez que um único tapete de musgo pode conter numerosos ramos, potencialmente equivalentes a indivíduos independentes. Para lidar com esse problema, os autores propuseram uma abordagem padronizada baseada na área ocupada pelas colônias, fornecendo uma ferramenta que pode auxiliar futuras avaliações de risco para musgos e outras briófitas.

Mais do que avaliar uma única espécie, o trabalho evidencia o quanto ainda sabemos pouco sobre a flora da Antártica. Se uma das espécies que compõem a vegetação terrestre do continente já atende aos critérios de ameaça da IUCN, outras briófitas podem estar enfrentando riscos semelhantes sem dados suficientes para que alguém reconheça o perigo. Os musgos da Antártica podem não ter o mesmo destaque público que pinguins ou focas, mas eles formam grande parte da “pele verde” viva do continente. Este estudo sugere que a proteção dessas espécies não pode mais esperar até que sejam mais bem conhecidas.

LEIA O ARTIGO:

 Amorim ETNeves BLE, Crispim Ferreira G, Transmita P, Câmara PEAS. 2026. First extinction risk assessment of a bryophyte species in Antarctica.Órix: 1-10.https://doi.org/10.1017/s0030605325102135  


Tradução para o português de Pablo O. Santos

Foto da capa por Des Callaghan (Wikimedia Commons, CC0 1.0).