As plantas das savanas amazônicas sobrevivem à seca e controlam a perda de água por meio de um espectro de estratégias, incluindo resistência à embolia, eficiência no uso da água e anatomia estrutural, de acordo com um novo estudo que aborda a correlação entre características anatômicas e o funcionamento hidráulico das plantas nesses ecossistemas. O estudo, realizado por Priscila Simioni e colegas, constatou que não há uma única estratégia funcional dominante empregada pelas plantas para prosperar nas savanas amazônicas.

As savanas amazônicas, trechos isolados de habitats abertos escondidos entre as florestas tropicais, cativam os cientistas há décadas. Embora muito progresso tenha sido feito na compreensão das características dessas savanas, ainda faltam evidências de como suas plantas diferem em características essenciais para sobreviver à seca e controlar a perda de água.

Para lançar luz sobre essa questão, um estudo foi realizado, aprofundando a intrincada interação entre características anatômicas e hidráulicas na folha e no xilema da madeira das plantas do cerrado amazônico. Simioni e seus colegas examinaram meticulosamente 22 folhas, madeira e características hidráulicas das sete espécies lenhosas dominantes que contribuem com 75% da biomassa em uma típica savana amazônica situada em afloramentos rochosos no estado brasileiro de Mato Grosso.

Anatomia foliar e lenhosa de cada espécie dominante na savana amazônica estudada. Imagem: Simioni et al. 2023.

Contrariando as expectativas, os resultados mostraram que apenas um número limitado de características anatômicas se correlacionou significativamente com atributos hidráulicos. A equipe de pesquisa encontrou um amplo espectro de variações entre as sete espécies examinadas, abrangendo resistência à embolia (formação de bolhas de ar no sistema de transporte de água da planta), eficiência no uso da água e anatomia estrutural. Consequentemente, tornou-se evidente a imensa complexidade dos mecanismos em jogo nesses ecossistemas.

Curiosamente, as variações na resistência à embolia foram ligadas às diferentes eficiências de uso da água pelas espécies. As espécies que apresentam menor eficiência no uso da água, como Kielmeyera rubriflora, Rádula de Macairea, simarouba versicolor, Parkia cachimboensis e Maprounea guianensis, exibiu maior condutância estomática. Esses achados suportam a hipótese de que essas plantas utilizam a suculência foliar e/ou possuem estruturas anatômicas de madeira mais seguras para sustentar a funcionalidade do xilema. Por outro lado, espécies com maior eficiência no uso da água, como Norantea guianensis e Alchornea descolorir, apresentou estratégias hidráulicas mais arriscadas.

Este estudo revela a intrincada relação entre as características estruturais de galhos e folhas, permitindo que diversas estratégias hidráulicas coexistam entre as plantas do cerrado amazônico. Dentro desses ecossistemas únicos, as plantas empregam estratégias como investir em mecanismos que tamponam a perda de água (folhas suculentas, por exemplo) ou desenvolver estruturas anatômicas mais seguras (membranas mais espessas (a parte da parede celular através da qual uma célula se comunica com outras células) e agrupamento de vasos no ramo do xilema, por exemplo).

Simioni e colegas concluem:

Nossos resultados sugerem que espécies que habitam savanas quentes e sazonais podem exibir diferentes estratégias de tolerância/evitação da seca. Estas estratégias podem ser igualmente bem-sucedidas na manutenção de um balanço hídrico favorável, permitindo a persistência e co-ocorrência de espécies.

Simioni et al. 2023.

LEIA O ARTIGO

Simioni PF, Emílio T., Giles AL, Viana de Freitas G., Silva Oliveira R., Setime L., Pierre Vitória A., Pireda S., Vieira da Silva I., Da Cunha M. (2023) “Características anatômicas relacionadas ao funcionamento hidráulico de folhas e galhos em plantas do cerrado amazônico" AoB PLANTS. Disponível em: https://doi.org/10.1093/aobpla/plad018


Imagem da capa: O Cerrado. Imagem: Ângeladepaula/ See More Wikimedia Commons