Tendo recentemente 'herdado' alguns novos tópicos de palestras em Ecologia na minha universidade, incluindo ter que supervisionar a prática de herbivoria em que os caracóis são colocados em plantas inocentes [algo que um botânico não deveria ter que suportar!], eu queria aumentar o lado vegetal de vida na palestra Plant Defenses. Procurando exemplos adequados baseados em evidências de plantas que usam produtos químicos para frustrar as atenções herbívoras dos animais, meu Google (o que costumávamos chamar de pesquisa de literatura nos velhos tempos, mas que agora é uma atividade legítima e uma palavra adequada!). Escrito por Karel Sláma e Carroll Williams, documenta a descoberta da atividade do hormônio juvenil pelo bálsamo para (Abies balsamea) contra Pyrrhocoris apterus ('firebug'- Radomir Socha, EUR. J. Entomol. 90: 241—286, 1993).

Percevejo (Pyrrhocoris apterus)
Percevejo (Pyrrhocoris apterus). Foto: Alvesgaspar/Wikipédia.

Dentro dos insetos, hormônio juvenil [JH; Lynn Ridiford, Endocrinologia Geral e Comparativa 179: 477 – 484, 2012] faz parte de um conjunto de fatores de crescimento endógenos que agem para garantir o crescimento coordenado adequado da larva até a idade adulta. A produção pelo abeto de um composto com atividade JH, que leva à interrupção do desenvolvimento do inseto, garante que eles não sofram metamorfose até o estágio adulto, que poderia ser sexualmente reprodutivo (e, portanto, levar a um aumento no número deste herbívoro que atacaria mais abetos no futuro…). Sua exploração pela planta é uma pequena parte da guerra bioquímica que as plantas travam com os insetos há milhões de anos. E há muitas facetas interessantes na história da atividade balsamífera de JH. Como foi descoberto por alguém, que foi o que se poderia chamar de 'observação casual'*, mas que foi reconhecido como tendo significado e seguido.

Os firebugs foram criados em potes contendo papel toalha. Em 10 anos de criação de firebugs em Praga (no Instituto Entomológico da Academia de Ciências da Tchecoslováquia, instituição de origem de Sláma), os insetos se desenvolveram completamente. Foi somente quando esses estudos foram realizados nos EUA (na Universidade de Harvard) que o desenvolvimento interrompido ocorreu. A razão para esse comportamento estranho acabou sendo que as toalhas de papel usadas nos Estados Unidos eram compostas em grande parte por polpa de abeto bálsamo. Do ponto de vista do historiador da ciência, mostrando aos cientistas de hoje como era um artigo de revista científica antigamente, temos um artigo encantador (vale a pena lê-lo – é apenas curto!), escrito em um estilo que não está de acordo com o estilo atual papéis rigidamente estruturados. Não contém exibições de dados, não possui análise estatística e nenhum esclarecimento real do composto ativo (!), mas foi publicado em um jornal altamente respeitado com uma Fator de Impacto 2014 de 9.674. Impressionante!

Mas, há mais.

Trabalhos posteriores da dupla descobriram que o composto ativo JH (denominado 'fator de papel') também agia como um ovicida potente e seletivo contra ovos de insetos (indiscutivelmente, uma forma ainda melhor de 'dissuasão' de insetos produzidos em plantas). Esse trabalho foi publicado em um jornal ainda mais prestigiado (que incluía uma exibição de dados, mas ainda sem estatísticas…), Natureza (Sláma & Williams, Natureza 210: 329-330, 1966) cujo Fator de impacto de 2014 é 41.456. E isso foi seguido uma semana depois (23 de abril de cf. 16 de abril) (!) por outro artigo no mesmo jornal de alto impacto que anunciou que o fator de papel também era eficaz contra Dysdercus koenigii (inseto de algodão vermelho) – Kailash Saxena & Carroll Williams (Natureza 210: 441-442, 1966). O que distingue este do original PNAS artigo – além da inclusão de uma exibição de dados (mas ainda sem estatísticas…) – é que o inseto vermelho do algodão é uma “praga considerável na Índia e no norte da África” (e em outros lugares, por exemplo Syed Ishfaq Ali Shah, Paquistão J. Zool. 46: 329-335, 2014), enquanto o inseto é “uma espécie benigna que se alimenta de sementes de limão (tília) por meio de suas partes bucais sugadoras” [bem, o fator de papel do abeto bálsamo parece eficaz em proteger seu dono!].

O fator de papel** é um exemplo dos milhares de chamados metabolitos secundários ou produtos químicos vegetais secundários (SPCs; por exemplo Thomas Hartmann, Fitoquímica 68: 2831 – 2846, 2007) que estão amplamente implicados na defesa das plantas contra insetos (por exemplo, Gottfried Fraenkel's A razão de ser das substâncias secundárias das plantas, Ciência 129: 1466-1470, 1959) e que continuam a ser os principais candidatos à exploração pelo homem (p. Michael Balandrin et al., Ciência 228: 1154-1160, 1985). Assim, além das comparações da escrita científica com os periódicos de hoje, *** com esse trio de artigos da década de 1960, pode-se ver o início da pesquisa sobre SPCs produzidos em plantas. Não menos importante é a sua relevância para o desenvolvimento de medidas de biocontrole para controlar pragas e doenças das culturas, conforme explorado por Johan Stenberg et al. (Trends in Plant Science). [Ed. – enfim, o atual material neste item histórico de 'notícias'!].

* Este é um excelente exemplo da máxima – atribuído a Louis Pasteur – esse acaso só favorece a mente que está preparada.

** O fator de papel é um sesquiterpeno agora chamado juvabione, o éster metílico do ácido todomatúico.

*** E esta série de artigos daria uma ótima atividade de ensino centrada no aluno, lidando com assuntos como redação científica, suficiência de evidências, o que determina para qual periódico uma descoberta/investigação é apropriada... Pode-se também especular se o ovicida natureza do fator de papel era conhecido quando o PNAS artigo foi escrito (e poderia razoavelmente ter sido incluído nele), mas foi omitido para gerar uma publicação separada em um jornal de muito mais prestígio.